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La joie (a alegria?)

Tenho sempre dificuldade em encontrar um equivalente que me satisfaça para as palavras “joie” (em francês) e “joy” (em inglês). A tradução directa – alegria – parece-me apontar para um sentimento menos profundo e duradouro do que as suas equivalentes joie e joy… Será porque o sentimento mais profundo e duradouro da alma portuguesa é a nostalgia, a famosa saudade a que os outros não deram nome?

Seja lá qual for a razão etimológica, hoje apeteceu-me falar da alegria (chamemos-lhe assim) – talvez por ser dia de S. João aqui no Porto e se ouvir por todo o lado canções do Quim Barreiros, after hours, foguetes e outros sinais de festa.

Ora justamente a alegria não é necessariamente isto de correr às ruas, dançar até cair para o lado, bater com martelos chiantes na cabeça dos outros folgazões, embebedar-se e comer sardinhas assadas. Não que eu tenha alguma coisa contra isso, mas não é dessa alegria sazonal que quero falar.

Era muito nova quando, numa tarde solarenga de início de Verão como hoje, ao descer o parque Eduardo VII (em Lisboa), descobri algo que mudou a minha vida. De repente, vinda de uma dimensão de mim até então desconhecida, surgiu um sentimento profundo, avassalador de exultação. E com ele veio a evidência de que a felicidade era possível e não dependia de nada.

Podia dizer – para parecer menos tola – que é a alegria de estar viva, ou outra coisa do género. Mas nem isso. É mesmo um sentimento auto-suficiente que vive no nosso interior, amordaçado pelas mil e umas preocupações, elucubrações, memórias, pensamentos e outro lixo de que os nossos corações estão cheios. Mas esvaziem-nos um pouco, deixem chegar a calma, e vão ver que a alegria de que falam os mestres não é uma espécie de paz choca, mas uma verdadeira exultação.

This Post Has One Comment

  1. Roger

    Apanho esses instantes fantásticos no fim de um dia qualquer a voltar para casa, no meu carro, só, a ouvir uma música e a cheirar um ar cheio de afinidades e só me apetece agradecer, sem proferir palavra. Um misto perfumado de alegria, tranquilidade, gratidão e também surpresa. Dura um instante mas vale uma eternidade. Sinto-me grato e feliz.
    Mas, como tudo muda, em breve estou embrenhado nas minhas complicadas “contas” mentais e tudo passa novamente a correr, cada vez mais rapidamente – as semanas, os meses, os anos. Uma loucura….

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