You are currently viewing Estado natural do espírito

Estado natural do espírito

Há várias teorias acerca da natureza humana. Certas filosofias ou religiões dizem que o ser humano é mau por natureza, que tem um defeito de fabrico, um pecado original e que, mesmo que possa, de vez em quando, ter atitudes altruístas, lá no fundo é um egoísta compulsivo roído pelas paixões mais destrutivas e capaz dos piores actos.

Outras filosofias ou religiões dizem o contrário: que o ser humano é bom por natureza, que possui uma centelha divina e que é a civilização que o corrompe.

O ponto de vista do Budismo é uma via do meio entre estas duas visões. Por um lado, a sua visão do estado de Buda como sendo a natureza de todos os seres aponta para uma visão positiva da natureza humana. Por outro, a sua compreensão do poder das emoções conflituosas reconhece que, na prática, enquanto estiver sob a ilusão do ego, o ser humano pode cometer os actos mais incríveis.

Mas, ao contrário de muitas outras filosofias, o Budismo não vê esta dicotomia entre a natureza boa e o poder destrutivo das emoções como uma luta entre o bem e o mal. Quando dizemos que a natureza de Buda é “boa” não nos estamos a referir a uma “bondade” que seja o oposto da “maldade” ou da perversão. A natureza de Buda é boa porque é a saúde mental, o sítio de onde viemos, para onde iremos e onde sempre estivemos. Não existe por oposição a nada, está sempre potencialmente presente.

Isto é algo que podemos comprovar pela experiência, através da meditação. É que, quando conseguimos pousar o espírito o suficiente para que os pensamentos não nos perturbem, quando repousamos numa sensação espaçosa e aberta, começamos a sentir uma paz embebida de ternura, algo de fundamentalmente são e doce. Tal como explicam os ensinamentos, é como a água barrenta que, deixada pousar, volta ao seu estado natural de transparência.

Assim, pouco a pouco, entendemos (de forma experiencial) que são todos esses fenómenos interiores que agitam e stressam o espírito que o toldam, impedindo-nos de aceder à claridade, espaço e ternura do estado natural do espírito, tal como as nuvens podem, momentaneamente, esconder o sol.

This Post Has One Comment

  1. isabel rodrigues

    …”enquanto estiver sobre a ilusão do ego, o ser humano pode cometer os atos mais incríveis”…, até sublinhei a frase Tsering! Somos muitas vezes levados por impulsos que mais tarde nos arrependemos. Praticando o Dharma vamos ficando mais reflectidos. Às vezes fico tão triste por pequenos atos que dantes até me passavam despercebidos. Procurava nos amigos o apoio que justificasse essas condutas e ia fazendo a catarse com humor. Agora tudo toma uma grande importância. Isto requer uma grande atenção. Será que algum dia teremos paz de espírito com tantas interferências?
    Abraço,
    Isabel

Deixe uma resposta