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A economia da compaixão

O Dr. G. Vankataswamy nasceu em 1918 numa pequena aldeia do Sul da Índia. Formou-se em clínica geral em 1944 e alistou-se no exército como médico. Porém, em 1948 (apenas com 30 anos), teve de se reformar devido a uma artrite reumatóide que lhe deformou os dedos por completo. Essa doença mudou o rumo da sua vida para sempre.

Apesar da sua enfermidade, o Dr. V. (como lhe chamam) voltou para a universidade e fez uma especialização em oftalmologia. Graças a um árduo trabalho e intenso treino, conseguiu habituar-se ao uso do bisturi e realizar operações aos olhos. Durante a sua já longa vida, o Dr. V. Realizou mais de cem mil operações.

O Dr. V. trabalhou no Madurai Medical College como chefe de oftalmologia e tornou-se um cirurgião de ponta. Aos 58 anos reformou-se e fundou o Aravind Eye Hospital.

Inspirado na filosofia do reputado mestre indiano Sri Aurobindo, o Dr. V. conseguiu combinar, em Aravind, tecnologia de ponta e gestão aprimorada com espiritualidade compassiva, numa atitude a que ele chama de “economia da compaixão”.

Há, no mundo inteiro 45 milhões de pessoas cegas, dos quais 12 só na Índia. E 80% dos casos de cegueira são tratáveis. O objectivo do Dr. V era lutar contra a cegueira em grande escala.

Num país como a Índia, com elevado índice de população e poucos recursos materiais, o estado não tem capacidade para oferecer serviços de saúde para todos. Por isso, a ideia do Dr. V. era criar um modelo alternativo de cuidados médicos que fosse economicamente auto-suficiente.

Existem 5 clínicas Aravind na Índia onde os pacientes sem meios podem ser tratados gratuitamente. Os pacientes com meios pagam um montante que, embora não muito elevado, permite pagar por eles e mais dois outros pacientes. Devido ao grande número de intervenções e tratamentos, os hospitais não só são auto-suficientes como ainda geram um benefício que é usado para o treino de profissionais, a pesquisa e o desenvolvimento de produtos oftalmológicos de qualidade a baixo custo. Como consegue este homem um tal milagre económico?

Por mais estranho que pareça, a ideia do Dr. V. inspirou-se nos MacDonald’s, ou seja, no conceito de franchising: poder treinar pessoas, em qualquer lado do mundo, num certo número de procedimentos de forma a obter um produto final exactamente igual aqui como na Índia, na China ou em qualquer outro lado. Aplicando este princípio, o Dr. V. pensou que, se conseguisse treinar cirurgiões e pessoal médico altamente qualificado em procedimentos de ponta, eles poderiam realizar cada operação num tempo muito menor, baixando assim drasticamente o preço de custo de cada intervenção.

Graças ao trabalho de equipa na preparação dos doentes, cada cirurgião realiza, em média, 40 operações num dia, cerca de 2000 por ano, contra 220 em condições normais. Graças a esta alucinante performance, as clínicas Aravind tratam um milhão e quatrocentas mil pessoas e realizam 200,000 operações por ano.

Em Aravind, os pacientes que precisam de operações são trazidos das aldeias para serem tratados. Enquanto ficam nas instalações, são-lhes dadas refeições, alojamento e tratamento gratuitos. Finalmente, são de novo transportados para as suas aldeias. Em todo o processo, claramente, é dada prioridade ao ser humano.

Mais um exemplo surpreendente vem do departamento de produtos oftalmológicos, Aurolab, que produz lentes intra-oculares (de substituição do cristalino em operações às cataratas), lentes ópticas e aparelhos de audição de qualidade a preços incrivelmente baixos. A título de exemplo, as lentes intra-oculares que eles começaram por importar, nos anos 90, custavam 200 dólares. O Aurolab produ-las por 5.

Embora se trate de um Trust, o Aravind Eye Care System, funciona como uma empresa e gera lucros que são reinvestidos. O que é verdadeiramente fascinante nas clínicas Aravind é a forma exemplar como os números se aliam à motivação compassiva de devolver a qualidade de vida a todos, independentemente dos seus meios materiais. E a grande lição, é que, contrariamente ao que pretendem por vezes os grandes laboratórios e multinacionais pelo mundo fora, isso é possível a muito baixo custo. Tal como no caso de Muhammad Yunus, com o seu sistema de microcrédito, fica provado que para ter lucros não é preciso esfolar os outros.

Num momento em que o modelo económico vigente começa a dar sinais de estar ultrapassado, mais empresas deviam aprender esta lição: a economia da compaixão é o modelo do futuro.

O Aravind Eye Care System recebeu o prémio Champalimaud Visão em 2007
Consultar a página do Aravind Eye Hospital
Consultar a página do Aurolab

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