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A natureza da felicidade

Consideremos a natureza da felicidade. A primeira coisa a assinalar é que a felicidade é uma qualidade relativa. Experimentamo-la diferentemente de acordo com as circunstâncias. O que traz bem-estar a uma pessoa pode fazer sofrer outra. Todos nós, em geral, nos sentiríamos muito infelizes se fôssemos condenados à prisão perpétua. Mas um criminoso passível de pena de morte ficaria provavelmente muito contente ao ver a sua pena comutada em prisão perpétua.

Em segundo lugar, é importante reconhecer que usamos a mesma palavra “felicidade” para descrever muitos estados diferentes. Usamos a palavra felicidade para designar o prazer de tomar um banho de água fria num dia de calor. Usamo-la para designar estados ideais como quando dizemos que ficaríamos muito felizes se ganhássemos a lotaria. E usamo-la ainda para designar as alegrias simples da vida em família.

Neste último caso, a felicidade é um estado que persiste apesar dos altos e baixos e das interrupções ocasionais. Mas no caso de tomar um banho de água fria num dia de calor, sendo uma consequência de um acto cujo intuito é satisfazer os sentidos, é necessariamente transitório. Se ficarmos muito tempo na água começamos a sentir frio. Na verdade, o bem-estar que retiramos desses actos só existe se eles durarem pouco tempo.

(..)Se não fosse este o caso – se tais acções e circunstâncias não contivessem em si as sementes do sofrimento – quanto mais nos rodeássemos delas, mais felizes nos sentiríamos, do mesmo modo que quanto mais causas de dor acumulamos mais sofremos. Mas não é este o caso. De facto, embora possamos ocasionalmente sentir que encontrámos a felicidade perfeita desta maneira, essa aparente perfeição revela-se tão efémera como uma gota de orvalho numa folha, extraordinariamente cintilante um instante e desaparecendo no instante seguinte.

Assim se explica por que razão é um erro colocar demasiada esperança no desenvolvimento material. O problema não é o materialismo em si, mas a suposição de base que a gratificação dos sentidos só por si pode fazer-nos alcançar um estado de plena satisfação.

Ao inverso dos animais, cuja demanda de felicidade se restringe à sobrevivência e à gratificação imediata dos desejos sensoriais, nós seres humanos temos a capacidade de experimentar a felicidade a um nível profundo o qual, quando atingido, pode preponderar sobre as experiências que se lhe opõem.

(..)Esta capacidade humana para experimentar níveis de felicidade mais profundos também explica porque é que a música ou a arte podem trazer sentimentos de maior satisfação e plenitude do que a aquisição de objectos materiais. No entanto, embora as experiências estéticas sejam uma fonte de felicidade, elas têm ainda uma forte componente sensorial. A música depende dos ouvidos, a arte dos olhos, a dança do corpo. Tal como as satisfações derivadas do trabalho ou da carreira profissional, elas são em geral adquiridas através dos sentidos. Sozinhas não podem oferecer a felicidade com que sonhamos.

DALAI LAMA

This Post Has One Comment

  1. Isabel Rodrigues

    O desemprego ou medo de perder o trabalho é a maior causa de infelicidade no mundo moderno. O desempregado sente-se aborrecido, com baixa auto estima, zangado e por vezes apático. Há tendência à depressão e ansiedade. Está provado que a saúde física também se degrada. Do ponto de vista psicológico, o que se pode fazer para diminuir essa infelicidade? A chave é convencer as pessoas a utilizarem o tempo livre. O trabalho voluntário desenvolve novas capacidades e autoconfiança. Há que aproveitar todas as oportunidades de estudo e lazer. Isto não invalida as necessárias mudanças na sociedade, na economia e na planificação da semana de trabalho.

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