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O Senhor Ego – lição primeira

O senhor ego é um vil patife que inferniza as nossas vidas. Estou a falar do ego como é visto pelo budismo e não do ego da psicologia. Não sei falar deste último, mas posso dizer alguma coisa do primeiro.

Tenho andado hipersensível ao ego, de uma forma que ainda não conhecia. Claro que somos sempre mais sensíveis ao ego dos outros, até porque não há nada que mais irrite um ego grande que outro igualmente enorme. Por isso, quando o vemos nos outros, o nosso não anda longe. Não sei se não deveria inquietar-me desta minha súbita alergia…

Mas afinal quem é esse senhor infernal que vive dentro de nós? Verdadeiramente apenas uma fantasia, “a nightmare come true”. Há milhares de páginas na literatura budista dedicadas ao assunto, não tenho a pretensão de poder em algumas linhas desmascará-lo e expô-lo aqui perante os vossos olhos incrédulos, tipo: “Como podemos passar uma vida inteira ao serviço deste maquiavélico senhor, sofrendo e fazendo sofrer martírios à nossa volta, de forma totalmente desnecessária e sem qualquer benefício para ninguém?”

Mas é a mais pura das verdades. O ego é uma espécie de vírus, digno de um filme de Hollywood, daqueles tenebrosos em que uma espécie alienígena consegue corroer a humanidade por dentro, transmitindo-se de pessoa a pessoa e levando-as a todas à destruição…

Mas vamos lá ao nosso encontro de terceiro grau. Seja qual for a nossa experiência, percepção, pensamento, ou emoção, e na esmagadora maioria dos momentos, temos a sensação de uma entidade a quem chamamos “eu”, presente como aquele a quem a experiência está a acontecer, aquele que diz a “minha experiência”, o “meu pensamento”, o “meu corpo” ou o “meu espírito”.

Pare de ler estas linhas durante um instante e pergunte-se quem está a lê-las. Não responda logo com um “eu, claro”, espere mais um pouco. Observe. Sinta. Pouse-se.

(continua…)

This Post Has 11 Comments

  1. Manuela

    Excelente!Obrigada pela partilha. Anseio pela continuação! Beijinho grande

  2. J. Mendes Rosa

    O que é que se entende por “Orgulho do Buda”.
    Lamentavelmente não me lembro onde é que eu li isto – sei que na altura não compreendi. E hoje continuo sem compreender.

    1. tsering

      Bem, essa é uma outra questão bem diferente! O orgulho de Buda ou, mais frequentemente chamado Orgulho de Vajra, aparece no contexto das práticas do Vajrayana em que nos visualizamos como uma divindade. Neste tipo de práticas, que podem parecer um pouco estranhas, a ideia é cultivar a nossa Natureza de Buda, já presente em nós, associando-lhe uma espécie de arquétipo que a represente simbolicamente. Se, por exemplo, nos visualizarmos como Chenrezig, aspecto da compaixão da Mente Iluminada dos Budas, o Orgulho de Vajra é apenas a confiança de que, de facto, essa natureza iluminada e compassiva já está dentro de nós e que, na realidade, é o que somos, depois de despir o ego. 🙂

      1. J. Mendes Rosa

        Muito, mas, mesmo muito obrigado.

  3. Sónia Gomes

    Perfeito Tsering!
    Anseio pelos próximos Posts:)

    Muito grata pela partilha!

    Beijinhos

    Sónia Gomes

  4. Laura

    Agradeço o tempo que dedica à escrita destes textos. São excelentes na forma e no conteúdo.Como fazem parte das minhas leituras diárias cá fico à espera da continuação.Abraço fraterno

  5. isabel rodrigues

    O senhor ego é um vil patife mas, tem de ser tratado com carinho. Às vezes noto-o todo indignado e impaciente, quase pronto a explodir ou a tirar a língua de fora aos outros. Nessas alturas, levo-o a passear, lembro-lhe que o ego dos outros é tão inconsistente como ele, e, já que naquele momento não consegue amar ninguém, pelo menos não faça mais estragos… a coisa em geral compõem-se, e o senhor ego passa através das colorações egóicas nas relações. Como isto tudo dá um certo desgaste, o senhor ego tornou-se menos reactivo, mais sensível à serenidade dos outros e o mundo encheu-se de graça…

    1. tsering

      Boa estratégia, é assim mesmo! O Ego é um menino mimado mas não só com vinagre se apanham moscas… Tem de se dar um pouco de mel também, tudo nas doses certas. Uma no cravo outra na ferradura…

  6. paula Marqês

    Tsering muito obrigada por esta partilha. É excelente a forma clara e simples, como escreve estes textos, abordando questões tao complexas. Já no retiro admirei a forma tao simples e clara da abordagem das questões por parte do mestre Ringu Tulku Rinpoche. Esta capacidade de clarificar as nossas duvidas de uma forma tao natural e simples, mas tao esclarecedora, parece-me que é caracteristica de quem já atingiu um estado muito muito proximo do estado de Buda. Um bjinho grande.

  7. tsering

    Olá Paula, vamos aprendendo juntos. É essa a partilha. Um beijinho

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