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O Sr. Ego – tu és, eu sou… mas o quê?

Albert Einstein, que não era só extraordinariamente inteligente mas também muito sábio, disse: “O ego é uma ilusão de óptica da consciência”. Sem dúvida semelhante à que nos leva a ver uma serpente onde há apenas um pedaço de corda, acrescenta o Buda. Será possível que todos os nossos tormentos venham de um erro tão estúpido? É.

Quando, graças a uma proeza de contorcionismo, começamos a achar que existe um “proprietário-experienciador” separado da própria experiência, dividimos o mundo em dois: de um lado a experiência e de outro o experienciador.
De um lado “eu” e do outro “tu”, “eles” e todas as outras pessoas do plural e do singular, todas as coisas e todos os fenómenos, definitivamente expulsos da experiência unitária e classificados como “exteriores”. Assim nasce a dualidade.

No lugar da outra metade de nós, agora alienada, fica uma cratera brutal, um negro buraco insondável e devorador. Temos de convir que não é fácil andar por aí com tal inexistência pendurada ao peito, pelo que o Sr Ego procura preenchê-la com o que pode.

Preenche-a com identificações: sou menino, português, adepto do FCP (Ó balha-me Deus), uso sapatilhas Nike e só tenho iphone; e também com abominações: detesto chuva, odeio meínhas brancas, nunca comprava um BMW. Adoro animais; detesto pessoas mas o contrário também dá.

O Sr Ego precisa de constante feedback, precisa de ser protagonista, de ser apreciado, adulado, amado, reconhecido, notado. Mas se não conseguir, também dá ser odiado desde que isso lhe dê as luzes da ribalta. De todo o que não quer é ser ignorado.

Na literatura budista clássica, o inimigo é o ego e não os outros, pois é ele o ponto de partida de todas as emoções que nos atormentam: apego, aversão, ciúme, inveja, orgulho – reações de um eu em perpétuo alerta laranja de solidificação.

Contrariamente ao que pensamos, as pessoas e as situações são apenas um dos fatores no desencadear das emoções devastadoras que nos assolam, um estímulo que desorienta o ego, fazendo-o ligar as sirenes. Dependendo do grau de alerta em que vivem, há egos que reagem ao mínimo estímulo – ou até a um estímulo imaginado – outros que precisam de muito mais para reagir.

Na verdade, o ego é uma disfunção.

This Post Has 5 Comments

  1. Lidia

    Muito interessante este texto! Fico a aguardar pela continuação!

    Recentemente comecei a “despertar” para esta noção do eu, do ego, da consciencia… e tem sido muito interessante!
    No livro “Um mundo novo”, Eckhart Tolle fala imenso sobre esta “falsa percepção de quem somos, uma noção ilusória da realidade”, que é o ego.
    Quando li “constitui uma libertação extraordinária apercebermo-nos de que «a voz que ouço dentro da minha cabeça» não é quem eu sou. Então quem sou eu? Sou aquele que se apercebe disso. Sou a consciência anterior ao pensamento” caiu-me a ficha e muitas coisas começaram a fazer sentido!
    🙂

    1. tsering

      Sim, apesar de haver muita literatura budista sobre o ego, acho que o Eckart Tolle no “Mundo Novo” explica muitissimo bem esta questão. E mais do que boas explicações intelectuais, são mesmo momentos de insight, página após página. Realmente excelente!

  2. Ana Paula Fitas

    Tsering,
    Retiro um excerto deste post, a título de citação, para publicar no A Nossa Candeia – com a devida indicação da fonte 🙂
    Um beijinho.

  3. isabel rodrigues

    Pois… e quando o ego se irrita com o ego do outro? Dá vontade de partir todos os espelhos. Felizmente Tséring, há a natureza para nos limpar, a meditação para recentrar e a possibilidade de aceder a uma total abertura sem contracções. A perda do sentimento de separação e a tentativa de aproximação. Com calma chegamos lá.

    1. tsering

      O problema é sempre o ego – seja o nosso seja o dos outros. Aquilo que temos de perceber é que estamos aqui a tentar tratar da saúde ao nosso, não ao dos outros… 🙂 Uma coisa de cada vez… E no Budismo essa é uma coisa que temos de interiorizar: estamos a tentar transformar-nos a nós e não a tentar transformar os outros. Não quero com isto dizer que, no processo da minha transformação, não partilhe, não inspire e não ajude os outros. Mas não tenho lições a dar a ninguém.

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