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O Sr. Ego – eu tenho, logo sou…

Vimos no episódio anterior que uma das estruturas mentais mais básicas através da qual o ego existe é a identificação. Quando me identifico com algo, torno-o parte da minha “identidade”. É o que faço com as coisas (e também com as pessoas, mas isso fica para um próximo episódio).

No preço de qualquer objecto que tentam impingir-me e de que eu não preciso, está contida a promessa de que graças a ele me vou destacar dos restantes mortais, sobretudo daqueles que não têm, como eu, dinheiro para o comprar e integrar o Jet7 dos consumidores. E assim fica realçada – leia-se reforçada – a minha identidade, sempre em obras de beneficiação.

O tipo de coisas com que queremos identificar-nos depende do meio social, da cultura e dos indivíduos mas o impulso que nos leva a fazê-lo é universal. Decerto já na idade da pedra havia casacos de peles com griffe e outros sem…

Acho que é a este impulso egóico fundamental que o Buda chamou de “apego” ou “desejo”. E quando nos encoraja e libertarmo-nos dos desejos (e não forçosamente das coisas) está a dizer-nos “ponham o vosso ego em dieta” e verão como ele vai emagrecer!

Os compradores compulsivos sofrem de uma bulimia de coisas (e, muitas vezes, também de comida) com que tentam preencher o vazio que lhes vai na alma desnecessariamente – leiam o episódio anterior. Sairia bem mais barato sentarem-se a meditar e descobrirem… que o suposto vazio é uma ilusão de óptica.

Ao longo dos anos em que tenho ensinado o budismo a pessoas de todas as idades e quadrantes sociais tenho ouvido muita gente dizer que os bens materiais não lhe interessam. Acredito que, comparativamente a quem aposta sobretudo nas coisas para preencher o ego, até seja verdade. Mas, porventura esse desapego também nem sempre será assim tão radical. A maior parte de nós, ainda que sabendo que a felicidade é uma capacidade interior, não é totalmente imune à identificação com os objectos.

O lado mais paradoxal deste processo, é que não houve, nem nunca haverá, qualquer bem material que possa preencher o tal suposto “vazio”. E que, por muitas coisas de que o nosso ego esteja atulhado, há sempre sede de mais. Como dizem os mestres budistas: ceder ao desejo é como beber água salgada, quanto mais se bebe mais sede se tem.

Olhe honestamente para dentro: possuir um iphone (será por acaso que tudo o que é Apple – americano e símbolo de prestígio – começa por I?) dá-lhe um frisson particular? Pertencer finalmente ao clube dos ilustres proprietários de Mercedes fê-lo subir na sua própria consideração? Usar qualquer coisa de marca (ostensivamente escondida num lugar discreto) transmite-lhe segurança?

Se reagiu positivamente a alguma destas perguntas não se preocupe. Já que o ego não é, em si, bom nem mau mas sobretudo (c)ego, estar consciente das suas estratégias é porventura a melhor estratégia.

(continua…)

This Post Has 2 Comments

  1. isabel rodrigues

    Aqui está uma grande dificuldade. Fugir da sociedade de consumo é muito difícil. Hábitos antigos, quase compulsivos. Todo o ambiente à volta cria necessidades. O ego só gosta de conforto. O ego está nas coisas, agarrado como uma lapa, construiu-se assim. Se não é o rolex, será a bugiganga, o ego é meticuloso e consome à medida de todos os bolsos. Devia ir para a prisão mas, ao sair, consumiria num só dia tudo a que esteve privado. Ensina-nos Tséring!

  2. tsering

    LOL O problema não está nas coisas mas nesta identificação, claro! E o marketing está todo desenhado para despertar nos egos o desejo de possuir mais. Mas quer seja muito ou pouco, valioso ou sem valor, é o ego que, como uma lapa, se agarra às coisas das quais retira um sentido de identidade.
    Tem de ser um strip-tease lento, que vem de nos irmos soltando das garras do ego, com um pouco de meditação, muita atenção e observação, alguma compreensão, muito jeitinho para que não entre em pânico… É… Vai-se com calma… Vai-se perdendo…

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