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O Sr. Ego – T1 ep.4 – Quer ser meu inamigo?

Na nossa peregrinação pelas terras egóicas chegamos, no episódio de hoje, a um dos principais centros nervosos do mundo samsárico: as relações. Sobre o assunto há tanto para dizer que nem sei por onde começar…

Possuir coisas e torná-las parte da nossa identidade é dispendioso mas simples. Fazer o mesmo com pessoas é bem mais complicado e também mais conflituoso. Quanto mais fizermos das nossas relações uma questão de ego, mais faremos delas também o nosso principal campo de batalha.

Como o Sr. Ego gosta de ser notado, o ponto de partida das suas amizades são as pessoas que dão por ele, que o acariciam no sentido do pêlo. Mas o Sr. Ego não aceita qualquer pessoa no seu círculo de amigos: tem de ser alguém que, pelo seu perfil, acrescente valor à sua imagem. Vedetas, políticos ou qualquer figura pública são os amigos que os egos mais desejam. Já alguma vez se sentiu valorizado por ser amigo de uma pessoa conhecida? Por ser visto em público ou simplesmente morar na mesma rua que alguém rico ou famoso? Relaxe, todos temos um ego.

À falta disso, um devotado admirador mesmo desconhecido, sempre pronto a preocupar-se connosco, a elogiar-nos e pôr um “Like” nos nossos posts do facebook, já não é mau de todo. O ego gosta. 🙂

Mas desengane-se porque nenhum ego dá nada a outro. Essas trocas de civilidades têm sempre um preço e, quando menos espera, chega a hora da cobrança. É nessa altura que percebe que cada telefonema, cada minuto de atenção, cada Like, o pôs à mercê de outro ego, que ele tem agora o arpão bem ferrado na sua carne. E, se deixar de dar o feedback desejado, é só puxar pela corda…

No mundo das relações egóicas (porque felizmente existe também outra forma de nos relacionarmos*) todos arpoamos e todos somos arpoados. E sob a aparência da amizade e do amor – balha-nos Deus – quanta crueldade! Pais e filhos, irmãos e irmãs, amigos e companheiros, chantageiam-se emocionalmente sem pudor nem piedade. Mantêm-se arpoados uns aos outros, sem nunca abrir mão, lamuriando sem fim sobre o quanto fizeram e a tão fraca paga que recebem.

No mundo das relações egóicas, cada ego – em estado de alerta permanente – está essencialmente preocupado com a sua sobrevivência. Os outros só existem para ele como forma de se afirmar. Como se costuma dizer: com amigos destes, quem precisa de inimigos?

(continua…)

* Consigo ouvir daqui o coro de protestos pelo tom um pouco “cínico” do meu post. Claro que os seres humanos são capazes de outro tipo de sentimentos, mas o ego não. De forma mais ou menos óbvia ou mais ou menos disfarçada, ele é sempre o centro de tudo. A boa notícia é que nós não somos o nosso ego… por isso também é tão frustrante ver-nos a reagir de formas tão destrutivas e absurdas para nós e para os outros. Somos capazes de infinitamente melhor!

This Post Has 5 Comments

  1. Pedro Martins

    Está a ser excelente esta primeira temporada 🙂 Obrigado pelos insights!!!

  2. isabel rodrigues

    É… andamos todos por aí armados aos cucos. A cura para a doença é simples: sempre e sempre, a primazia ao outro. É a abertura ao outro que nos pode guiar.

  3. Milai

    Não perder a capacidade de me deslumbrar mesmo perante a decepção que o outro me pode dar. Talvez assim descubra coisas novas em mim e construa um caminho. E se vejo o outro chorar, que isso não me dê poder. E antes de debitar talvez seja melhor escutar. O ego inibe os outros porque se “borra de medo”

  4. Isabel Rodrigues

    É… andamos todos para aí armados aos cucos. O remédio é simples: sempre e sempre a primazia ao outro

  5. tsering

    Dar a primazia ao outro sem esperar nada em troca – ou seja, sem que isso se torne uma nova identidade: “Ó p’a mim que sou tão bonzinho!” 😉

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