O Sr. Ego T2 ep.1 – Eu faço… logo existo

Andamos sempre muito ocupados. O trabalho ocupa-nos, a família ocupa-nos, o lazer ocupa-nos. Todos temos milhares de coisas para fazer e estratégias para não as perdermos de vista. E quando, por milagre, temos um momento de ócio… enchemo-lo com qualquer coisa.

Muitos egos definem-se pelo que fazem e se não estiverem ocupados não existem o suficiente. Na sua perspectiva é o grau de ocupação, lista de afazeres, número de contactos no telemóvel que definem a sua importância.

Claro que há quem seja uma lástima a definir prioridades e quem se organize melhor. Enquanto os primeiros correm de uma coisa para a outra, sempre deixando pontas soltas e tarefas por acabar, os segundos, conseguem simplesmente encaixar mais coisas na agenda. Mas, com mais ou menos stress e mais ou menos eficácia, ambos estão sempre ocupadíssimos.

Para a maioria de nós a vida é uma longa lista de afazeres, de intermináveis e repetitivas tarefas que realizamos em piloto automático. Trabalhamos o dia todo e quando paramos vemos televisão, bebemos copos, drogamo-nos (com drogas legais ou ilegais) porque permanecer no momento presente é simplesmente insuportável.

Esta “ocupacionite” é uma forma de preenchermos o tal vazio que erradamente sentimos e mais uma forma que o ego tem de desviar a nossa atenção. É que que poderíamos, se não estivéssemos sempre ocupadíssimos, inadvertidamente darmo-nos conta que vivemos bem melhor sem ele.

Mesmo quando nos queixamos que não temos tempo para tudo, criamos mais ocupações sem nos darmos conta, porque estar ocupados faz-nos sentir importantes. E ser importante significa que não podemos parar, que não temos tempo para ficar doentes, que nada funciona sem nós. Ser importante é uma prioridade absoluta na nossa vida para que deixemos de nos sentir inexistentes.

Além disso, estar ocupados permite-nos evitar a realidade. Assim não temos que ponderar a realidade da impermanência, a certeza da morte, a inevitabilidade do sofrimento. Somos tão importantes e tão essenciais ao funcionamento do mundo que não nos é permitido parar para reflectir – isso é só para quem não tem nada que fazer.

Assim os anos vão passando sem que nos tenhamos compenetrado de que nós, e todos os que amamos (se tivermos tempo para amar) vamos morrer. Nesse dia toda a gente irá passar sem nós. Todas as tarefas ficarão por terminar. E o mundo certamente não irá acabar por isso.

Claro que não podemos riscar das nossas listas todas as ocupações que lá se encontram. Temos que trabalhar, alimentar a nossa família e fazer as milhentas coisas que daí derivam. Mas podemos tentar avaliar se tudo o resto é verdadeiramente necessário ou apenas uma forma de nos sentirmos existir.

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