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Sr. Ego T2 ep.8 – Darwin errou e o Dalai Lama está certo

A ideia defendida por Darwin que a evolução das espécies se baseia na competição e na rivalidade e que são os mais competitivos que sobrevivem tem os dias contados.

Ainda que custe ao nosso ego admiti-lo – ele que aplaude a teoria com todas as mãos que tem (e que eu suponho serem 4 visto ser o asno que é) – a compaixão, a empatia e a cooperação são muito mais eficazes para a sobrevivência do que a competição.

A esse propósito lembro-me de uma história que me contaram e que remonta aos tempos da escravatura (será no Brasil?). Como muito frequentemente me acontece, os locais e os nomes apagaram-se mas ficou o teor da história.

Numa fazenda, um grupo de escravos pensou como poderia fazer para comprar a liberdade. Um deles, um homem com uma visão acima da de Darwin, sugeriu o seguinte:

Já que o preço da alforria era tão alto que quase nenhum escravo conseguia pagá-lo ainda que trabalhasse a vida inteira, ele sugeriu que todos trabalhassem para libertar um deles. Depois de ser um homem livre, esse iria trabalhar – ganhando mais do que os escravos – e o seu ganho, junto com o dos outros, permitiria libertar um segundo, bem mais depressa. O segundo a ser libertado faria o mesmo, e por aí fora. O plano foi posto em prática e todos eles conseguiram a alforria. Trabalhando cada um para si, nenhum teria conseguido.

O que acho engraçado, agora que à luz de recentes descobertas se tem vindo a concluir que o altruísmo é uma emoção inata e universal tão profundamente enraizada e tão antiga como o medo ou a cólera, é que tenha sido preciso esperar por máquinas sofisticadas que perscrutam as reações subtis do nosso cérebro para finalmente aceitarmos o que um simples escravo, certamente sem qualquer instrução, pôde descobrir sozinho.

Será preciso ser António Damásio a dizer que “a compaixão mobiliza as camadas mais profundas do cérebro à semelhança de outras emoções tão básicas como o medo”, contrariando a ideia acalentada pelos egos de que se trata de “um artefacto cultural”?

Se for preciso, então que seja. Porque tanto a mera observação como agora a própria ciência reconhecem que a ideia de que o egoísmo, a ambição e a competição forjam o âmago do ser humano e constituem o motor da evolução humana já foi. O pior é que tem sido esse o pressuposto que tem orientado negócios, política, sociedade e cultura, o tal que nos levou  à beira da rutura. Será que ninguém vê?

This Post Has 8 Comments

  1. Ana

    Parabéns pelo seu sábio texto.
    ARodrigues

  2. Carlos Leiras

    Concordo quase que integralmente com o texto, excepto na parte em que Darwin é chamado de asno. Darwin foi um grande cientista que possibilitou o avanço da ciência como poucos, as suas conclusões devem ser vistas à luz da época, os nossos olhos estão demasiados distantes no tempo para este género de julgamentos morais. De resto satsfaz-me que a ciência esteja a aproximar-se do que realmente sentimos e sabíamos há bastante tempo.

    1. tsering

      Como é evidente nem tudo o que Darwin disse é falso e, além disso, como diz, à luz da sua época teve uma grande visão. Aliás não é Darwin que eu chamo de asno mas sim o ego – e também como brincadeira.. 🙂 A frase diz: “ainda que custe ao nosso ego admiti-lo – ele (o ego) que aplaude a teoria com todas as mãos que tem (e que eu suponho serem 4 visto ser o asno que é)”.

      1. Carlos Leiras

        peço desculpa:)

  3. João

    A ideia base da teoria da Evolução é a adaptabilidade.
    Os individuos melhor adaptados a determinado ambiente são os que sobrevivem. Não fala em competição nem em rivalidade.
    Na sua história dos escravos, mais uma vez, é o mais apto que “sobrevive”.

  4. Tiago Coelho

    ainda bem k a verdade nao é só ciencia nem se limita ao evidente, tal como este texto, cheio de bons sentimentos, que julgo nao ter pretensões de tese científica a refutar cientificamente, mas sim um conjunto de verificações como a rivalidade, que é um facto comportamental, desculpado com ilacções de natureza incontornável, que não é verdade absoluta cm s vem a confirmar para quem de confirmação necessita

  5. Gostei muito da história dos escravos que se compram num sistema “piramidal”… Entrando no território da política, Marx, na sua análise do capital, observa que o dinheiro tem uma característica diferente da dos outros produtos: não se extingue, podendo ser acumulado e gasto um número indefinido de vezes, servindo para comprar cada vez mais coisas.

    Acho que também devia haver um esquema piramidal para o bem e a felicidade. Como pô-lo em prática?

  6. Yusuf

    Exactamente, Tsering!
    Causa alguma revolta perceber que nos tempos que correm seja preciso gastar uns milhares de euros em estudos, ou vir alguém de renome mundial dizer algo sobre um determinado tema para que isso seja aceite (os estudos de Manuel Damásio em contraponto com a infinita sabedoria Budista é um caso flagrante). Muitas vezes são fenómenos conhecidos à milénios, com raízes ancestrais e resultados deveras consistentes para milhares de pessoas, mas não têm a chancela de um “Sr. Prof. Dr. Catedrático”, nem foi estudado cientificamente…

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