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Sr. Ego T2 ep.10 – Vire o seu mundo ao contrário

Sou budista há quase quarenta anos, há portanto outros tantos que oiço falar do ego. Mas, apesar disso, só recentemente a necessidade de o desmascarar se tornou absolutamente cristalina para mim.

Não têm conta as vezes em que ouvi ensinamentos do Treino Mental (lodjong, em tibetano), tais como o Bodhicharyavattara, As oito estâncias do Treino mental ou as 37 práticas dos Bodhisattvas. Todos fazem muito sentido mas o ego aproxima-se deles com a maior das precauções, como se de nitroglicerina se tratasse. Não é caso para menos: do seu ponto de vista esses ensinamentos são letais.

Entender que que quem nos inferniza a vida não são os outros nem as circunstâncias mas sim o ego, é o ponto de partida para a prática budista. Temos de meter na cabeça que o inimigo é o ego, não os outros. Sem que esse ponto esteja assente – pelo menos intelectualmente – estamos em riscos de fazer do budismo uma nova imagem de marca da nossa identidade fictícia.

Mas, quando esse ponto fica assente, a nossa vida muda radicalmente. Seguindo a máxima que diz que os inimigos dos meus inimigos são meus amigos, tudo o que destrói o ego passa a estar do nosso lado. Obstáculos, problemas, circunstâncias adversas e doenças – os maiores pesadelos do ego – são aliados preciosos para quem está empenhado em levá-lo à ruina.

Podemos medir a clareza de motivação de um praticante espiritual – budista ou não – pela forma como enfrenta as dificuldades. Quanto mais claramente se distanciar do ego, quanto mais o tiver amestrado, mais será capaz de encarar com alegria aquilo de que os outros fogem a sete pés. É por isso que alguns seres excepcionais procuram deliberadamente situações difíceis e extremas como forma de acelerarem o processo. Trocam o conforto das suas casas pelo deserto ou pelas grutas, enfrentando o frio, a solidão, a fome e outras condições extremas, não por masoquismo, mas para acossarem o ego e lhe mostrarem claramente quem manda.

É importante entender que embora tais atitudes nos pareçam impossíveis neste momento, quando a nossa determinação se tiver desenvolvido, serão tão evidentes como o foram para eles. Para começar – e não é pequeno desafio – treinemo-nos com o que temos à mão e passemos a olhar para as dificuldades como oportunidades de ir degastando o ego.

This Post Has 2 Comments

  1. João Graça

    Obrigado

  2. Ana

    Grande sabedoria exposta de modo tão claro.Grata.

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