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Sr. Ego – T3 ep 6 – Quem não sente não é filho de boa gente

Se há coisa que o Sr. Ego detesta é sentir-se vulnerável. Vulnerável é o mesmo, para ele, do que fraco, exposto, passível de ser humilhado a qualquer momento.

Ele que se abotoa de sobretudos desnecessários e armaduras enferrujadas e quer – sempre – ter razão e levar a melhor, não suporta abrir mão da sua parafernália e sentir aquele ponto sensível, quase doloroso, bem no centro do coração. Aquilo a que gosto de chamar de insustentável ternura.

Por causa dele procuramos calar a dor permanente de sermos humanos, saber-nos mortais e estarmos conscientes de que tudo passa. Por causa dele tentamos adormecer a ferida aberta do sofrimento alheio que, de toda a forma, consciente ou inconscientemente, sentimos como nosso. Por causa dele tememos para além do razoável não poder controlar tudo e todos para que nunca – por nunca ser – nos sintamos ameaçados ou frágeis. E depois fica tudo tão quieto, tão vazio, tão desprovido de sentido que, por causa dele, entramos em depressão.

Mas como sempre, embora hábil, o Sr. Ego prima pela estupidez (chamemos-lhe “falta de visão” para não o achincalhar mais). Porque todos os seus esforços para eliminar o desconforto resultam numa insensibilização generalizada. À força de não querer arriscar, de não querer a mais pequena ponta de dor, ficamos com o coração dormente e deixamos, sim, de sentir o “mau” mas também o “bom”. Pois é: desengane-se por favor, pois quem conseguiu eliminar a dor, deixou de sentir tudo. É assim com muitos de nós: anestesiamo-nos em vez de viver.

Claro que nos anestesiamos com álcool, drogas e medicamentos. Com televisão e outras formas diversas de alienação – há-as para todas as bolsas. Mas anestesiamo-nos ainda com muitas formas mais subtis e fundamentais tais como não nos abrirmos, não encararmos a realidade e vivermos encolhidos no fundo do medo de sermos magoados.

E se formos? Não fará parte da vida alguma dor? Não será ela o cimento da nossa ligação aos outros? Dizem que a primeira respiração de um recém-nascido lhe queima os pulmões. Deveria ele recusar-se a respirar?

Somos frágeis. Somos vulneráveis. Por isso só temos duas alternativas: ou recusamos a nossa natureza e decidimos ser plásticos e inquebráveis, anestesiados e artificiais ou aceitamos a vulnerabilidade do coração humano, abrimos a porta à insustentável ternura e sentimos ao vivo e a cores a imensa energia inebriante de que é feito o mundo. Caramba!

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