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Sr. Ego T3 Ep.7 – Agarre a batata quente

De vez em quando uma batata quente vem parar ao nosso colo. Instintivamente, procuramos de imediato a quem podemos passá-la; o mesmo faz o próximo e o outro a seguir. Às vezes penso que muito do sofrimento do samsara é uma batata quente que, desde tempos imemoriais, anda de mão em mão sem nunca arrefecer.

O molestado, molesta; o fraco, assim que está em posição de força, abusa; e, de pais para filhos, de fortes para fracos, de ricos para pobres, a história da humanidade é uma batata escaldante que, através das gerações, das classes sociais, das revoluções e outras convulsões, não cessa de passar de mão em mão.

Se queremos fazer deste mundo um sítio melhor, podíamos começar por mudar esta forma de reagir. Convenhamos: é preciso alguma coragem para reter a batata quente enquanto esperamos que arrefeça. Para arcar com o impacto e não largar logo o nosso grito infantil: “não fui eu, foi ele” – um pouco mais polido e disfarçado é certo, mas essencialmente igual ao de então.

Mas, se tivermos a coragem de o fazer, poderemos ficar surpreendidos com o resultado. Se ainda não nos chacinámos todos uns aos outros – sobre este maravilhoso planeta azul – é porque existem alguns “adultos” neste mundo que aceitam segurar batatas quentes por si e pelos outros. Não hesito em chamar-lhes Bodhisattvas (os heróis do altruísmo verdadeiro e saudável) porque sem eles o mundo seria ainda bem pior.

Na minha pequena experiência, segurar batatas quentes tem resultados espantosos, sobretudo a médio e longo prazo. Nas relações a dois, a três, a vinte; nos casais, nas famílias, nas equipas de trabalho e na sociedade em geral, um só “segurador de batatas quentes” transforma a sua vida e a de centenas de pessoas. Acontece também – e é bom que o saiba – que com o hábito, vamo-nos habituando e as batatas já não nos parecem tão quentes.

Sobretudo, não pense que quem segura a batata é um sacrificado. No momento inicial pode até parecer, mas se tiver a coragem de experimentar, vai ver que é o primeiro beneficiado.

Assim, quando uma batata quente, vinda dos confins do tempo sempre a rodar, aterra no seu colo e dali não sai, tem porventura a noção do sofrimento que evitou a quanta gente? Por favor, pense nisto.

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