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Sr. Ego T3 ep.10 – Negatividade, o efeito de estucha

Não sei se é cultural ou estrutural mas quando alguém pergunta como vamos, em Portugal responde-se “Vai-se andando”. Depois de muitos anos a viver em países francófonos, quando voltei para cá, fui apanhada de surpresa pela expressão.

Quando alguém me respondia “vai-se andando”, ficava com a sensação de que a pessoa estava com um problema, uma doença grave, enfim qualquer coisa de monta.

O que se passa? Qual é o problema – perguntava eu. A surpresa estampava-se no rosto do interlocutor. Nada de especial, vamos andando.

O irmão mais velho do “vai-se andando” é o “estou pr’áqui” – às vezes completado por “sozinho(a) e abandonado(a)” – que é utilizado por uma faixa etária mais avançada, mais desanimada com a vida e em plena crise de chantagem emocional. Mas, de toda a forma, ambas as fórmulas exprimem o portuguezíssimo pesaroso fardo de viver.

Já não nos basta a tristeza do fado que, posta em poesia, arranca lágrimas às pedras da calçada – agora, pelos vistos, no mundo inteiro.* Não somos só peritos em desgraças sentimentais, ciúmes, traições e amores não correspondidos, somos mesmo os especialistas da morosidade quotidiana, do vai-se andando e do estou pr’áqui.

Felizmente vivemos num país cheio de sol, de brandos costumes e poupado pelas calamidades naturais, onde até as revoluções se fazem com cravos. Se tivéssemos apenas 4h de lusco-fusco por dia no pino do Inverno, já a raça se teria extinto, morta de depressão.

A sério: o porquê desta morosidade permanece um dos mistérios do universo. Parece que estar alegre, feliz e contente, sem queixas sobre o tempo, a política, os preços ou o futebol é anti-constitucional em Portugal.

A negatividade é verdadeiramente uma poluição. O mesmo efeito que a poluição sonora e ambiental tem ao nível exterior, tem a negatividade ao nível interior. Focarmo-nos nos aspetos desagradáveis vida, queixarmo-nos em permanência de tudo e mais alguma coisa e cultivarmos a falta de entusiasmo põe o nosso estado de Presença em média-luz e gera à nossa volta um campo electromagnético acabrunhado.

Por isso, quando anda por aí cabisbaixo, lembre-se disto e levante a cabeça. Sinta o sol na sua pele – mesmo no Inverno, caramba! –, inspire o ar Lusitano e coma um pastel de nata. Bote um sorriso na cara e repita interiormente as inúmeras e essenciais razões que tem para estar grato na vida. Que tal reinventar um Portugal mais risonho?

* Com isto não pensem que não gosto de fado… – ou não fosse tuga, né?

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