You are currently viewing Gostar de si

Gostar de si

Quando saí de Portugal em 1973 (céus, sou assim tão velha!) a palavra auto-estima ainda não existia. Consequentemente, uns estariam mais em paz consigo e outros menos mas ninguém sofria de fraca auto-estima porque ninguém sabia o que era.

Esse é o problema das palavras e dos conceitos: a partir do momento em que existem moldam e transformam a realidade – frequentemente complicando-a.

Depois disso vivi 22 anos num mundo em que ninguém me falou de auto-estima. Pelo contrário… Os ensinamentos budistas que ouvi durante essas duas décadas todos falavam de como mimar menos o ego. De como quanto mais centrados estivermos sobre nós mais sofremos e de como, para sermos felizes, convém pensar mais nos outros e menos em si próprio. Assim, a primeira vez que me deparei com a palavra auto-estima reagi com a surpresa de um extra-terrestre: o que raio seria isso e como poderia ser uma coisa boa ter-se a si próprio em grande consideração?

Claro que, passados 17 anos após o retorno à Terra, o efeito de surpresa já passou. No entanto, ainda hoje sinto um arrepio quando oiço alguém dizer que precisa de pensar mais em si próprio. Efeito da formatação, decerto.

Não gostar de si é uma contorção interessante. Além de termos a impressão de existirmos de forma independente da nossa experiência – o observador que observa e, sobretudo, avalia a própria experiência – há ainda o avaliador do avaliador, que se dá ao luxo de gostar ou não gostar do primeiro. Podemos virtualmente criar um número infinito de supervisores: o ego pode multiplicar-se como uma imagem entre dois espelhos paralelos, supervisando e avaliando os anteriores. A pergunta que se pode colocar então é: mas qual deles sou eu? O que experimenta, o que é avaliado ou o que avalia? O primeiro, o segundo ou o terceiro supervisor?

Claro que ninguém coloca estas perguntas. Confrontada com elas, a maioria das pessoas acha até que são idiotas. Aqueles que se dariam ao trabalho de responder diriam simplesmente algo do género: são vários aspetos da mesma coisa – eu, que diabo!

Os ensinamentos do Buda são mais apelativos para aqueles que não têm uma resposta pronta e acham que vale a pena investigar. Aqueles que não aceitam seja o que for só porque sempre foi assim, que não assumem nada como um dado adquirido. Os que não se conformam com clichés.

Saber quem, ou o que, somos – haverá coisa mais importante e urgente? Num mundo em que o conhecimento está todo voltado para o exterior, pode parecer contraproducente. Mas a ancestral sabedoria grega recomendava: “gnōthi seauton”, conhece-te a ti próprio. Acho que não estava simplesmente a sugerir que fizéssemos uma psicoterapia.

Deixe uma resposta