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First there is a mountain…

Há uma parábola Zen que diz: “Primeiro as montanhas são montanhas. Depois as montanhas já não são montanhas. No final as montanhas voltam a ser montanhas” (como na canção de Donovan).

Na continuação do post anterior, lembrei-me desta parábola. Porque primeiro vivemos sem nos preocuparmos com o sentido da vida, apenas com as pequenas e grandes tribulações domésticas. Quanto vamos ganhar a menos ou a mais, em que escola pôr as crianças, o que preparar para o jantar… As montanhas são montanhas porque o nosso horizonte é esse: como gerir a vida, como pagar as contas, como assegurar o futuro e coisas do género. As coisas são o que são, com mais ou menos felicidade, com mais ou menos sofrimento, com mais ou menos aceitação, e ocupam tanto espaço na nossa mente que não há lugar para mais questões.

De vez em quando morre alguém, há um atentado suicida num local que já visitámos ou alguma tragédia brusca se abate à nossa porta… e então, de um sítio interior que nunca visitamos, vem uma espécie de inquietação – afinal que sentido faz tudo isto? Balbuciamos banalidades – desta vez um pouco mais sentidas: “Nós não somos nada.”… E voltamos para casa, enterramo-nos no sofá e ligamos a televisão, à espera que passe.

Depois, talvez à força de insistência da vida, chegamos àquele questionamento doloroso, obsessivo, existencial, que descrevi no post anterior: mas afinal que andamos nós aqui a fazer? Para que serve tudo isto? Haverá algum sentido?

As montanhas deixam de ser montanhas, queremos perceber, explorar, dar sentido. Comer, dormir, trabalhar e resolver problemas já não nos bastam – queremos que tudo isso, afinal, conduza a algum lado. Queremos que os nossos esforços não sejam vãos.

Quando essas questões sobem à cabeça, tudo se complica. Buscamos filosofias, conceitos, ideologias. Mas como pertencem exclusivamente ao mundo racional, ficam sempre aquém da vida. Falta-lhes seiva, suco, palpitação. Nenhuma nos satisfaz e sentimo-nos náufragos num oceano de vazio, não acreditando em nada que seja apenas uma tábua de salvação.

Com sorte, tudo isso desce ao coração e aí se resolve. A vida faz sentido pelos outros, por fazê-los felizes, por aliviar o seu sofrimento, por estender a mão e unir os que estão desunidos. Faz sentido pela partilha, pela empatia, pela ajuda, pela aceitação. Faz sentido porque gostamos de nós e acreditamos que merecemos ser felizes. Faz sentido porque aprendemos que é possível amar sem exigências, compreender, consolar. Faz sentido porque sabemos que, vivendo de forma digna, tornamos a nossa vida e a daqueles que de nós se aproximam mais feliz e significativa.

E no fim? As montanhas voltam a ser montanhas? Voltam. Mas talvez dedique a isso o próximo post.

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