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O poder da verdade

Alguns pretendem que nascemos com um defeito primordial, algo que nos torna imperfeitos e incompletos, capazes apenas de sentirmos bondade e empatia se, com um esforço sobre-humano, conseguirmos controlar as nossas mais naturais e perversas propensões.

É uma questão de ponto de vista. Claro que basta olharmos à nossa volta (e em nós também) para notarmos comportamentos destrutivos, absurdos de maldade gratuita e egoísmo feroz. Mas nem só de isso é feito o homem.

Suspeito até que o discurso do defeito primordial e da imperfeição seja o discurso do ego, disfarçado em doutrina e dogma, pois é ele que perpetuamente se sente imperfeito, inacabado, sempre sedento de algo que preencha o vazio interior criado pela dualidade inerente à sua própria existência. Assim, reconfortado pela crença nessa imperfeição enquanto verdade máxima, a sua subsistência está garantida e é por isso que, ao longo da história, tão cruelmente se atacou a quem tivesse outra opinião.

Mas a realidade é outra. Quando procuramos para além do domínio do ego e chegamos à quietude da Presença, percebemos que não precisamos de nada que não tenhamos já; que não precisamos sequer de aperfeiçoar o que já é perfeito, naturalmente claro e bondoso: precisamos apenas de o reconhecer.

O papel do mestre espiritual é lembrar-nos o que, no fundo de nós próprios, em profundezas que raramente visitamos, já existe para além do tempo e do espaço. O poder da verdade não é ideológico. O poder da verdade é o poder irrefutável do reconhecimento.

Oiço muitas vezes as pessoas dizerem que o mérito do budismo não é de nos trazer um conhecimento novo mas de iluminar, de forma clara e inequívoca, aquilo que, no fundo, já sabemos.

É por isso que a verdadeira transmissão do Dharma é não-verbal: passa-se no silêncio da Presença onde as palavras são apenas o eco repercutido dO Que É.

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