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Os homens têm a natureza de Buda… e as mulheres também

De há algum tempo para cá os livros sobre as diferenças entre a psicologia feminina e masculina têm tido muito sucesso. Os títulos são divertidos e evocadores: eles vêm de Marte, elas de Vénus; eles nunca ouvem o que se lhes diz, elas não conseguem ler o mapa das estradas. Engraçado: depois de uma luta encarniçada para obter a igualdade, estamos a chegar à conclusão de que somos diferentes. A vida é mesmo assim!

Naturalmente, muitas pessoas (geralmente mulheres) querem saber o que o Budismo diz sobre o assunto. Será que fala de diferenças fundamentais entre os homens e as mulheres? Será que as mulheres também podem ser Budas, será que há uma hierarquia?

O Buda ensinou que os homens e as mulheres possuem o mesmo potencial e que ambos podem atingir o estado de Buda, não havendo, a esse nível, qualquer diferença. A natureza de Buda não depende do sexo, da raça, da época ou da localização geográfica.

Mas, na prática, terão os homens e as mulheres as mesmas oportunidades de se tornarem Budas? É aqui que as coisas se complicam pois, embora existam biografias e relatos de mulheres iluminadas, o seu número é infinitamente menor do que o dos homens. É importante compreendermos porquê.

Os homens e as mulheres têm características físicas e psicológicas diferentes. Algumas estão relacionadas com o corpo (como por exemplo a força física ou a capacidade de dar a vida) e outras com o papel que, ao longo de milénios, cada um assumiu na sociedade humana. Mesmo se nenhuma dessas características afecta o potencial de Buda em si, na prática, a força física levou o homem a assumir um papel mais activo na defesa da tribo ou da família e a capacidade de dar a vida levou a mulher a assumir o papel de mãe e de cuidadora. A longo prazo, a execução das tarefas relacionadas com os respectivos papéis desenvolveu nos homens e nas mulheres aptidões particulares e disposições psicológicas específicas.

Além disso, ao longo dos tempos, as sociedades humanas organizaram-se de diversas maneiras, atribuindo prerrogativas, deveres e hierarquias diferentes aos homens e às mulheres. Se pensarmos que, ainda hoje, numa altura em que as mulheres adquiriram autonomia e um estatuto semelhante ao dos homens, o número de mulheres que são chefes de estado, primeiros-ministros ou que exercem cargos de grande responsabilidade é reduzido, vemos que essa igualdade é teórica e não se aplica na realidade. Todos podemos constatar que, para ganharem reconhecimento profissional, as mulheres têm de se esforçar muito mais e dar provas de uma competência que raramente é exigida aos homens. Teoricamente qualquer mulher pode ser presidente da república mas, na prática, não há nenhuma. A diferença entre a teoria e a prática é visível.

Muitas pessoas pensam que o Buda discriminou as mulheres por, de início, não as ter aceitado na sua comunidade. Mas a razão para tal não tem que ver com a opinião que o Buda tinha sobre as mulheres ou o seu potencial mas sim com os preconceitos da sociedade em que vivia. Na sociedade indiana da época as mulheres não eram aceites nas comunidades espirituais nem podiam tomar qualquer decisão por si. É de notar, porém, que ele acabou por aceitá-las apesar dos fortes preconceitos sociais.

No Tibete as mulheres eram bastante mais livres do que na Índia. Havia mosteiros de monjas e elas podiam praticar a espiritualidade, no entanto as condições eram piores do que nos mosteiros de monges e o grau de instrução das monjas muito inferior. Nestas condições não é de admirar que os relatos de mulheres iluminadas sejam raros. Por um lado, as oportunidades de praticar a via espiritual com a instrução e o acompanhamento adequados eram menores. Por outro, é provável que tenha havido muito mais mulheres com um elevado grau de realização do que as que ficaram na história mas que, devido aos preconceitos sociais, elas não tenham obtido o reconhecimento necessário para serem lembradas séculos depois.

Como é evidente hoje em dia a situação das mulheres no Ocidente é bastante diferente e, por conseguinte, as oportunidades de praticar e evoluir espiritualmente são muito maiores. Mas é importante compreendermos que o Budismo nunca discriminou as mulheres. Quem discriminou as mulheres foram as sociedades em que o Budismo foi praticado e a situação, o papel e o estatuto que elas tiveram ao longo dos tempos nessas sociedades apenas dependeu dos preconceitos sociais vigentes.

Assim, com o Budismo a chegar ao Ocidente, as probabilidades de vermos mulheres atingirem um elevado grau de realização espiritual multiplicam-se. Nesse aspecto, a situação nunca foi tão favorável. O próprio Dalai Lama já disse – não sei se para nos apoiar – que talvez a sua próxima reencarnação seja feminina e o Karmapa Ogyen Trinle Dorje faz questão de se afirmar um paladino da condição feminina no seio da tradição Kagyu do Budismo tibetano.

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