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Lançamento do Hábito da Felicidade

Nos tempos que correm o sentimento de insegurança e o receio do futuro aumentaram. É como se tudo o que parecia sólido e resistente estivesse afinal erigido sobre areias movediças e temos a sensação de que tudo nos foge por entre os dedos.

Não são apenas as crises económicas que abalam a nossa confiança: os relacionamentos, os afetos, a conjuntura social e política, os atentados, as notícias… tudo contribui para que nos sintamos cada vez mais inseguros e angustiados. É por isso que, quer estejamos em plena crise quer não, é fundamental dedicarmos algum tempo a estas questões.

Em relação há uns anos atrás, a mentalidade mudou bastante e a ideia de que a felicidade depende de cada um alastrou. Ouve-se cada vez mais que a felicidade é uma escolha, um hábito, algo que temos de cultivar interiormente. Esta tendência virou moda e foi adoptada com entusiasmo por movimentos new age de espiritualidade barata. Não falta quem nos explique, por uma módica quantia, o segredo de como “manifestar” o que queremos na nossa vida a partir de um pensamento positivo. Tudo o que temos de fazer é decidir o que queremos, concentrarmo-nos nisso e, milagrosamente, tudo acontecerá tal como sonhámos.

Escusado será dizer que não era bem isso que o Buda tinha em mente. Aliás, há muito quem ache as verdades que ele partilhou um pouco deprimentes. Preferem pensar que se pode optar pela felicidade como quem carrega num botão e que, basta escolher ver “o copo meio cheio”. Provavelmente já se apercebeu de que a realidade é um pouco diferente.

Talvez uma das razões pelas quais os ensinamentos budistas se estão a tornar tão populares é por parecerem, de alguma forma, ir no mesmo sentido que a obsessão ocidental pela felicidade. Mas esta concordância é apenas aparente. Claro que o objetivo final do Budismo é a libertação do sofrimento mas a sua abordagem é diametralmente oposta à da nossa sociedade. Enquanto Buda começa os seus ensinamentos falando da realidade do sofrimento e das suas causas, o Ocidente quer varrer essa realidade para debaixo do tapete. Aliás, a aversão que nutrimos pelo sofrimento e a forma doentia com que o negamos transformou-o num dos últimos tabus da nossa época.

Tristemente, esta dualidade tem-nos tornado cada vez mais infelizes. Estar bem tornou-se uma obrigação e sofrer uma anomalia vergonhosa de que ninguém quer padecer, de forma que a busca da felicidade se transformou em mais uma obsessão angustiada a juntar a tantas outras.

O caminho do Buda vai no sentido oposto. Parte da realidade do sofrimento inerente à nossa condição para nos mostrar as suas causas internas e nos ensinar a eliminá-las. O resultado começa por ser a aceitação da dor como fazendo parte da vida e, posteriormente, a sua completa transcendência.

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