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FIB ou PIB?

Numa época em que por todo o lado se ouve falar de crescimento económico e de Produto Interno Bruto, o famoso PIB, há um país com um conceito radicalmente diferente. No Butão, o que conta é o FIB, a Felicidade Interna Bruta.

O Butão é um país minúsculo, budista e com um fraco desenvolvimento económico. No ranking da ONU, ele aparece em 134º lugar de 177 países, em termos de desenvolvimento económico. Assim, observadores externos e índices económicos concordam em dizer que a população vive na miséria.

Será bom não esquecermos que o que os índices e os critérios ocidentais chamam de miséria não tem nada a ver com a apreciação do grau de felicidade das pessoas. Quem já viajou em países subdesenvolvidos poderá ter ficado surpreendido com o que encontrou. No meio da tal miséria as pessoas parecem felizes, despreocupadas e certamente muito menos stressadas do que nós. Mas voltemos ao FIB.

Foi o rei, Jigme Singye Wangchuk, que nos anos setenta, afirmou em plena reunião da ONU que a FIB do seu povo o preocupava muito mais do que o PIB. Inicialmente a piada fez sorrir. Mas com os anos, esta ideia tem-se vindo a desenvolver.

O senhor Thinley, ex-ministro do interior e antigo primeiro-ministro, teorizou a afirmação real. Segundo ele, o FIB apoia-se em quatro grandes pilares. O primeiro é o desenvolvimento sócio-económico justo e estável. O segundo, a preservação do meio ambiente. O terceiro, a preservação e a promoção da cultura e dos valores tradicionais. E o quarto, uma boa governação.

A pergunta é: “Será que um governo pode fazer algo para preservar e promover a felicidade dos seus cidadãos?”. De acordo com a visão budista este é, essencialmente, um trabalho pessoal que cabe a cada indivíduo desenvolver sobre si próprio, de forma independente do ambiente social em que vive. Assim, quer o governo seja bom ou mau, comunista ou capitalista, esse trabalho é sempre possível.

No entanto, se um governo tivesse em mente criar condições que promovessem a saúde social, mental e espiritual das pessoas, certamente que o resultado seria muito positivo. Justiça social e repartição da riqueza, são fundamentais para uma vida social saudável. Preservação do ambiente é vital se queremos dar um futuro aos nossos filhos. Preservar a cultura e os valores tradicionais pode soar mal num mundo onde tudo está cada vez mais “globalizado” mas tem a sua importância, pelo menos eu acho. É certo que as tradições locais – romarias, celebrações, touradas, procissões, etc. – têm tendência para desaparecer. Essas formas estavam ligadas a um tempo, um espaço e uma forma de viver que mudaram radicalmente nas últimas décadas. Assim, é natural que essas formas se esvaziem de conteúdo e desapareçam. Mas isso não é o mais importante.

Em contrapartida, há coisas que nunca se tornam anacrónicas. OS valores humanos de dignidade, respeito, solidariedade e compaixão nunca deixarão de ser actuais nem se esvaziarão de conteúdo. Não gostam de ser bem tratados? Não gostam que vos sorriam? Não gostam que sejam honestos convosco? Eu gosto.

No entanto, estamos todos de acordo que a maioria de nós não tem disponibilidade para reflectir sobre essas coisas e segue o movimento. Faz porque “se faz”, diz porque “todos dizem” e pensa porque foi ensinado a pensar assim. A esse nível, claro, um governo pode ajudar, fomentando uma mudança de mentalidades através de políticas e campanhas para a educação cívica da população, de todas as faixas etárias e particularmente dos jovens, claro. É que sem essa educação as nossas sociedades, por mais prósperas que sejam, continuarão a padecer de males profundos e irremediáveis e a ter um FIB baixíssimo.

O quarto pilar do senhor Tinley é a boa governação, ou seja, manter o equilíbrio entre os outros três, com honestidade, sentido cívico e sem ceder à corrupção.

Estamos longe desta utopia, não estamos?

This Post Has 2 Comments

  1. Vítor

    Como sou tendencialmente modesto no pedir, já me contentava com uma boa governação. Beijinhos, adorei este texto!

  2. artur

    Olá, Tsering Paldron.

    A pergunta do articulista é: “Será que um governo pode fazer algo para preservar e promover a felicidade dos seus cidadãos?”. De acordo com a visão budista este é, essencialmente, um trabalho pessoal que cabe a cada indivíduo desenvolver sobre si próprio, de forma independente do ambiente social em que vive. Assim, quer o governo seja bom ou mau, comunista ou capitalista, esse trabalho é sempre possível.

    Num estado em que os governantes são coniventes com o banditismo de toda espécie e feitio, não me parece, que os cidadãos possam conquistar a felicidade, apenas meditando sobre si próprios.

    Amigavelmente – um abraço

    artur

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