You are currently viewing Aceite a responsabilidade

Aceite a responsabilidade

Aceitar a responsabilidade é uma mudança radical de perspetiva, talvez um pouco assustadora. Na verdade, habituamo-nos a culpar os outros, a sociedade, o universo ou Deus – conforme o caso – e por isso, assumir a responsabilidade pela nossa vida pode parecer desconfortável.

Porém, se tudo dependesse de outras entidades, humanas ou divinas, estaríamos totalmente à mercê da sua boa vontade e, nesse caso, restar-nos-ia conquistar as suas boas graças. Se não acreditarmos na providência, temos de esperar que haja alguma justiça no universo e que os acontecimentos da vida não sejam pura e simplesmente aleatórios. Este ponto de vista é angustiante.

Em contrapartida, quando nos apercebemos de que é possível modificar a experiência do mundo ao mudarmos de perspetiva, fazemos uma fantástica descoberta. Verificamos que, afinal, temos o poder de transformar a nossa vida radicalmente, de escolher como nos queremos sentir e, além disso, não dependemos de ninguém. Isto é empoderante.

No início dos anos 2000, durante um período, fui várias vezes a Taiti. Havia lá um grupo budista que me convidava anualmente para fazer conferências e seminários. Nessa altura, havia uma praga de uns insetos originários da Califórnia a que os taitianos chamavam “moscas mijonas”. A particularidade deste nome deve-se ao facto de elas se alimentarem sugando a seiva das árvores e, depois, expelirem uma grande quantidade de urina. Nessa ocasião, era tal o número desses insetos que, se parássemos debaixo de uma árvore, sentíamos cair uma espécie de chuva muito fina e um pouco pegajosa.

Numa dessas idas, tivemos a sorte de receber Rabjam Rinpoche, um importante mestre tibetano, vindo diretamente do Nepal onde, nessa altura do ano, fazia bastante frio o que contrastava, brutalmente, com a temperatura quente e húmida do Pacífico Sul. No primeiro dia, de manhã, estávamos debaixo de umas árvores para nos protegermos do sol e Rinpoche transpirava bastante. Com agrado, notou que havia uma pequena chuva deliciosamente fresca e, solicitamente, expliquei-lhe do que se tratava.

No final da tarde, Rinpoche deu uma conferência em Papeete e, para explicitar a importância da perspetiva no modo como experimentamos as coisas, relatou o que lhe acontecera de manhã: “Enquanto pensei que era chuva achei delicioso, mas assim que me explicaram que era urina, fiquei enojado e saí imediatamente debaixo da sombra.”

Entre o instante em que sentiu agrado e aquele em que sentiu nojo não aconteceu nada de concreto, contudo a sua experiência transformou-se radicalmente. Esta transformação resultou apenas do facto de ter mudado de perspetiva em relação à chuva. Este pequeno incidente, não tem nada de inédito: coisas deste género estão sempre a acontecer-nos mas, geralmente, nem lhes damos atenção nem tiramos quaisquer conclusões. No entanto, elas ajudam-nos a entender como a avaliação que fazemos das situações determina o modo como elas nos fazem sentir. Porém, não podemos cair em extremos: como é óbvio, nem tudo na vida é escolha nossa. Seria tolice imaginar que doenças, catástrofes naturais ou crises económicas dependiam de nós. Claro que, o local onde nos encontramos, aquilo que fazemos e o que somos, resulta em grande parte de sucessivas escolhas que fomos fazendo ao longo do tempo. Todavia, o mundo é uma teia tão complexa de interdependências que os fenómenos não são todos da nossa responsabilidade. É essencial percebermos que, mesmo quando não escolhemos certos acontecimentos da nossa vida, temos sempre a liberdade de decidir a importância que lhes damos, como os interpretamos e como queremos reagir a eles.

Deixe uma resposta