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Aceite o sofrimento

Uma das grandes dificuldades quando defrontamos o sofrimento advém da violenta rejeição que sentimos por ele. Não se trata unicamente de não querermos sofrer mas sim de uma verdadeira fobia, de uma aversão incontrolável pelo sofrimento.

Para além do sofrimento direto, provocado pelo facto objetivo em si e do sofrimento indireto, gerado pela especulação e pelo medo temos ainda, subjacente, a violenta rejeição de todo e qualquer tipo de sofrimento. Esta recusa manifesta-se com agressividade e violência e é um fator importante de agravamento da dor.

Quanto mais tempo permanecermos bloqueados na rejeição, mais tempo adiaremos o alívio do sofrimento. De facto, a intensa aversão sentida, ocupa todo o espaço e impede-nos de encontrar soluções e de implementar melhorias. O ódio cega-nos e bloqueia-nos e não entendemos que, ao cedermos-lhe, pioramos substancialmente a nossa situação.

Daí que o primeiro passo para o alívio do sofrimento seja a sua aceitação. Tal pode parecer paradoxal até porque, intuitivamente, parece-nos que a rejeição cria uma barreira que impede o indesejável de ganhar terreno. Por conseguinte, receamos que a aceitação nos exponha e nos torne mais vulneráveis. Mas, isso é absolutamente falso. Por ventura, o facto de resistirmos a algo o impediu de acontecer ou o afastou do nosso caminho?

Aceitar consta de um mero reconhecimento da situação que se apresenta, de uma abertura para entrar em contacto com a realidade, conhecê-la melhor e explorá-la nos seus diversos aspetos, vendo-a sob vários ângulos. É fundamental percebermos que aceitar não significa que concordamos, pactuamos ou colaboramos com o sucedido, igualmente, também não nos resignamos ou desistimos mas, pelo oposto, admitimos começar a trabalhar com o que é.

Ao inverso, recusar significa manter a ilusão de que está tudo bem ou, pelo menos, de que tudo irá voltar a ser como dantes. Num processo saudável, mais tarde ou mais cedo, rendemo-nos às evidências: o que aconteceu, aconteceu e não há como voltar atrás. Temos de lidar com a situação tal como ela é.

Porém, se persistirmos na não-aceitação, fechamo-nos e ficamos bloqueados, recusando a comunicação, o que gera uma tensão terrível. Esta tensão, que erradamente acreditamos ser originada pela situação, é criada pela rejeição e é completamente inútil pois só piora tudo sem trazer qualquer alívio.

A aceitação surge quando nos distanciamos o suficiente das nossas dificuldades para podermos olhar à nossa volta. Aí, inevitavelmente aperceber-nos-emos de que, de uma forma ou de outra, toda a gente sofre, de que o sofrimento faz parte da vida. E, portanto, em lugar de nos insurgirmos, achando injusto o que nos sucede, reconhecemos com humildade e abertura que, se já aconteceu a tantas outras pessoas, porque não haveria de nos calhar a nós?

Assim, a aceitação faz-se por etapas e conquista-se diariamente. Quanto mais doloroso for o problema que enfrentamos mais os avanços e os recuos serão numerosos. Poderá haver uma autêntica guerra dentro de nós, durante a qual ganharemos algumas batalhas e perderemos outras. Mas o principal é irmos aceitando, progressivamente, os diferentes aspetos da nossa situação, salvando o que pode ser salvo, resolvendo e melhorando o que nos resta e aprendendo a aceitar o que não tem remédio.

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