You are currently viewing Quanta música pode tocar?

Quanta música pode tocar?

Temos propensão para nos focalizarmos obsessivamente nos problemas e perdermos de vista os inúmeros comprazimentos da nossa vida. O facto de ter uma dificuldade financeira, por exemplo, não o deve impedir de valorizar o afeto dos seus amigos. Pelo contrário! 

Talvez tenha perdido um filho, mas há outros que precisam da sua atenção e do seu carinho. Se perdeu a visão restam-lhe quatro outros sentidos que pode afinar e desenvolver. Se está paraplégico, continua a poder falar, ouvir, ler, compreender e, sobretudo, a amar. Claro que é doloroso perder um filho, ficar cego ou paraplégico, e isto são exemplos extremos, todavia é contraproducente concentrar-se obsessivamente na perda e esquecer tudo o que ainda possui e tudo o que ainda pode fazer com o que lhe resta.

Gosto muito desta história que, com elegância e grandeza, ilustra uma atitude de coragem face à adversidade. Itzhak Perlman, o famoso violinista israelo-americano, contraiu a poliomielite em criança e usa um aparelho em cada perna para se poder deslocar. Assim, quando dá um concerto, é devagar que faz a viagem dos bastidores até ao palco onde toca sentado.

Um dia, Itzhak foi tocar ao Lincoln Center, em Nova Iorque, uma peça bastante difícil. Durante o concerto, de repente, uma das cordas do seu violino rompeu-se com aquele som característico que se assemelha a um tiro de caçadeira e que se repercutiu por todo o auditório. A orquestra parou imediatamente e todos esperaram para ver o que ele iria fazer. Em vez de pegar nas muletas e deixar o palco ou esperar que lhe trouxessem uma nova corda, Itzhak fechou os olhos, concentrou-se por uns instantes. De seguida, fez sinal ao maestro para prosseguir e tocou o resto da peça com as três cordas restantes no violino.

Um espetador conta o que viu: “Todos sabemos que é impossível tocar um concerto para violino apenas com três cordas mas, nessa noite, Itzhak Perlman fingiu ignorá-lo. Podíamos vê-lo a reescrever a partitura mentalmente enquanto tocava com um virtuosismo arrebatador. Quando terminou, a sala ficou mergulhada no mais profundo silêncio por uns segundos, até que as pessoas o começaram a aplaudir num crescendo de entusiasmo. Itzhak sorriu, limpou a testa e levantou o arco, pedindo silêncio. Então, num tom doce e pensativo sem qualquer espécie de arrogância, disse: “Sabem, por vezes um artista tem de descobrir quanta música ainda pode tocar com o que lhe resta!”

Deixe uma resposta