You are currently viewing A felicidade vem do sentido

A felicidade vem do sentido

A felicidade mais duradoira vem do sentido global que damos à vida e este só pode vir de algum objetivo que, não só transcenda o prazer imediato, mas transcenda ainda o nosso bem-estar pessoal. Embora, em condições normais, prezemos o nosso bem-estar acima de todas as coisas, em situações extremas sucede exatamente o contrário: aquilo que não faríamos por nós fazemo-lo em nome de valores, ideais ou pessoas.

Esse sentido que transcende a nossa existência pessoal é particularmente essencial para nos possibilitar atravessar os altos e baixos da vida. Só algo que seja, aos nossos olhos, mais importante do que o nosso bem-estar, permite que o sofrimento não destrua a felicidade e ganhe sentido.

Saint-Exupéry, no livro Terra dos Homens, conta a história de um dos seus amigos, Guillaumet, também ele piloto. Um dia o seu avião foi apanhado numa tempestade e forçado a aterrar nas neves dos Andes. Enrolado nos sacos do correio que transportava, ele esperou 48 horas que os aviões de reconhecimento o encontrassem, mas em vão. Sem víveres nem roupas adequadas para se proteger do frio, a sua única hipótese de sobrevivência era caminhar para não morrer de frio. Caminhou cinco dias e quatro noites sem parar até que, exausto e  no limite das suas forças, escorregou e caiu. Faltava-lhe coragem para continuar e deixou-se ficar, tentado a ceder ao desejo de adormecer. Deixar-se morrer de frio pode ser tentador nesta situação pois é fácil adormecer e não acordar mais.

Quando começou a sentir-se invadido pelo torpor, Guillaumet pensou na mulher e ocorreu-lhe que o seu seguro de vida a salvaria da miséria. Porém, caído como estava numa encosta, quando a neve derretesse na Primavera, o seu corpo rolaria para o fundo de um abismo e nunca seria encontrado. Ocorreu-lhe então que, em caso de desaparecimento, a morte legal era declarada apenas após quatro anos e que, até lá, a sua mulher monetariamente nada receberia.

A possibilidade de a sua mulher ficar reduzida à miséria foi-lhe tão insuportável que Guillaumet levantou a cabeça; cinquenta metros mais à frente viu um rochedo e pensou que, se se arrastasse até lá e se encostasse a ele, o seu corpo seria encontrado mesmo depois do degelo. Então, graças a um esforço sobre-humano, levantou-se. Depois de estar em pé, Guillaumet caminhou mais três dias e duas noites e foi finalmente encontrado e salvo. “O que eu fiz, nenhum animal faria”, foi o seu comentário. Certamente que não e por uma razão crucial: um animal não consegue transcender o seu próprio interesse.

Assim, a nossa vida ganha naturalmente sentido quando a consideramos útil aos outros. Não precisamos de descobrir a cura para o cancro nem de termos meios para erradicar a fome no mundo: necessitamos apenas de sentir que fazemos alguma diferença na vida das pessoas que nos rodeiam.

Excerto do livro O Hábito da Felicidade

Deixe uma resposta