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Cada dia é um dia

Sempre que especulamos sobre a duração de uma situação, criamos um sofrimento extra, totalmente desnecessário. Na verdade, a única coisa a gerir é este preciso instante pelo que a duração é somente um conceito sem realidade tangível e imediata. No entanto, é um conceito que nos assusta e angustia, muito mais do que o sofrimento real que estamos a experienciar, aqui e agora.

“Hoje o dia foi péssimo e amanhã vai ser igual. Depois de amanhã nada mudará e daqui a seis meses continuarei a sofrer. Estou condenado para o resto da minha vida.” Estes pensamentos não se referem a uma dor ou uma situação concreta que, de facto, esteja a ocorrer, neste preciso instante, mas são uma mera suposição sem qualquer realidade. Contudo, angustiam-nos profundamente.

Numa fase difícil da minha vida, aprendi que cada dia é um dia e é o único que temos de gerir. Tudo o resto é pura especulação. Assim, ao final de cada dia, em vez de pensar “Foi um dia horrível e amanhã será pior!”, dizia “Hoje consegui chegar ao fim do dia. Amanhã logo se vê”. Creio que esta é também a estratégia usada pelos toxicodependentes em fase de desintoxicação. Ao fim de cada dia, fazem uma retrospetiva: “Hoje não me droguei”. Não fazem promessas nem planos para o dia seguinte, não se sobrecarregam com obrigações a longo prazo. Cada dia é uma vitória ou uma derrota, mas é apenas um dia. Amanhã é um novo desafio.

Gerir a dor por um dia é possível, todavia pensar que temos de geri-la durante um mês ou um ano apavora-nos. Perdemos completamente as forças e ficamos tão desencorajados que somos incapazes de lidar com o instante presente. Pensar a longo prazo, em momentos difíceis, é esmagador e deprimente.

Guillaumet, o piloto amigo de Saint-Exupéry de quem já falei, explicou como fez para caminhar vários dias e noites no meio das neves dos Andes: “Desde o primeiro dia, a minha grande preocupação foi impedir-me de pensar. O sofrimento era demasiado intenso e a situação demasiado desesperada. Para conseguir ter a coragem necessária para caminhar não podia pensar nela. (…) O que me salvou foi dar um passo, depois outro e outro. Dar um passo de cada vez.”

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