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Envelhecer é uma bênção

Envelhecer tem dois resultados distintos: para o ego é aterrador, para a nossa natureza mais profunda, a perda de vigor físico pode ser uma oportunidade de expansão e apaziguamento. À medida que mais e mais elementos identitários vão caindo, o ego vai-se decompondo e adelgaçando. Os títulos, as opiniões, o estatuto social ou a beleza, que costumavam inspirar-nos orgulho e que tínhamos tanto medo de perder, mostram-nos o seu pouco valor. Vemos como as lutas em que nos envolvemos por uma posição social ou por um avanço na carreira, se revelaram vãs e lamentamos ter desperdiçado tanto tempo e tanta energia nelas.

Embora nas nossas sociedades já seja raro, lembro-me de ter visto esse extraordinário abandono nos olhos de alguns idosos. Com o abandono do ego vem uma grande ternura e sentimos como se todas pessoas fossem nossos filhos ou netos.  À medida que o ego deixa de ter onde se prender – se o aceitarmos com abertura e sentido de humor – a luminosidade natural do nosso espírito começa a irradiar. Todo o sofrimento que nos circunda deixa-nos incrédulos, tristes e é incompreensível a razão por que sofremos e fazemos sofrer por coisas verdadeiramente insignificantes. Por isso, nem sentimos que ao sermos dependentes dos outros nos privamos da nossa dignidade. Quando nascemos éramos frágeis e sobrevivemos graças aos outros. Posteriormente, ao atingirmos a idade adulta, convencemo-nos de que não precisamos de ninguém, no final da vida, voltamos à condição inicial. 

Julgamos que a generosidade consiste somente em dar não obstante temos de ser benévolos para podermos receber. Só quando nos compenetramos de como o ato de receber nos é penoso, é que percebemos a arrogância escondida que existia no dar. Receber é mais difícil porque parece colocar-nos numa posição de inferioridade.

Quanto maior e mais denso for o nosso ego, mais receio terá de desaparecer. Nestas condições, envelhecer é um terror e por isso muitos estão aptos a tudo para manterem a ilusão de ainda serem novos e continuarem em forma. Resistem com pujança às sucessivas perdas causadas pela idade e tentam compensar-se daquelas que não podem evitar com mau-humor. Na ordem natural das coisas, este strip-tease do ego traz sabedoria, não só o conhecimento resultante da experiência de vida, mas sobretudo a irradiação da bondade natural do nosso espírito.

Este processo será mais simples se, durante a nossa existência, tivermos desenvolvido um contacto também profundo com a nossa verdadeira natureza. Caso tivermos vivido com bondade, praticado meditação e compreendido a realidade do mundo, o descascar do ego será natural e progressivo. Não daremos tanta relevância a todas essas coisas com que ele se identifica e, por conseguinte, não será um drama perdê-las. Do ponto de vista espiritual, envelhecer é uma das nossas grandes bênçãos.

Excerto de O hábito da Felicidade

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