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As duas setas

No Sallatha Sutra Buda diz o seguinte: “Quando as pessoas comuns sentem dor preocupam-se, sofrem e ficam desesperadas. Sentem então duas dores, uma física e outra mental. É como se fossem atingidas por uma seta e depois por outra e experimentassem a dor de duas setas.”

Estas frases exprimem perfeitamente aquilo que sentimos quando experimentamos o sofrimento físico (ou mental). Além da dor propriamente dita, a rejeição, o medo e a angústia geram dentro de nós um segundo tipo de sofrimento que se adiciona ao primeiro e que, frequentemente é maior do que este.

Buda continua, dizendo: “ (As pessoas) resistem e reagem contra a dor. Este sentimento subjacente de aversão em relação à sensação dolorosa torna-se uma obsessão.” Assim, a reação de querer afastar a dor transforma-se em aversão, a qual rapidamente toma conta de nós, fazendo-nos sofrer muito mais do que a dor em si.

Quando permitimos que a aversão nos invada, ela torna-se uma maneira habitual de sermos, logo, há uma intensificação da negatividade e deixa de haver espaço para o bem-estar, a felicidade ou para outros sentimentos ou experiências positivos. É como se tudo o que nos rodeia seja apenas dor, mesmo aquilo que outrora nos dava prazer. Na verdade, cegamos para a beleza, o afeto e o bem-estar e tudo nos oprime e atormenta. Isto, claro, acontece quer a primeira seta se trate de uma dor física quer de outro tipo de sofrimento.

Buda continua: “Confrontadas com uma sensação dolorosa, as pessoas comuns procuram a distração compulsiva. Porquê? Porque é a única forma que conhecem de lhe escapar. Esta tendência subjacente para procurar o entretenimento torna-se então obsessiva.”

Quando tentamos escapar à dor pela distração, erigimos uma barreira entre nós e a sensação dolorosa, seja ela física ou mental. Parece-nos uma reação lógica – e poderá sê-lo em casos pontuais de dor aguda – mas, quando se torna um modo habitual de estar, o resultado provável será um agravamento da resistência e consequente aumento do sofrimento.

Quando analisamos a nossa experiência poderemos reconhecer os nossos hábitos de fuga preferidos, tanto em momentos de crise específicos como de forma geral: comer, fumar, dormir, beber café ou os menos óbvios como fazer compras ou falar compulsivamente e todos nos desviam da obrigatoriedade de lidarmos com o que sentimos. É uma estratégia de diversão e pode até parecer válida contudo Buda alerta: “Ao resistirem e tentarem distrair-se da dor compulsivamente, as pessoas comuns são completamente dominadas por ela e afundam-se no sofrimento e no desespero.”

Na realidade, a experiência demonstra que a resistência, a aversão e a tentativa de fuga à dor são as piores estratégias possíveis e, infelizmente, as mais usadas. É através delas e dos sentimentos contraditórios e conflituosos que elas geram, que a dor verdadeiramente invade a nossa vida, alienando-nos de tudo.

This Post Has One Comment

  1. daniel

    Obrigado pelas suas partilhas gene-rosas, Tsering*

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