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Que realidade tem a realidade?

Há momentos em que nos apercebemos da extrema fragilidade do mundo! Todos os dias, há pessoas que saem de casa para trabalhar e nunca mais voltam. Um acidente de carro, um desabamento, um atentado, um ataque cardíaco ou um coágulo no cérebro, interpôs-se entre elas e a rotina. Não deve haver no mundo muita gente que não se tenha confrontado um dia com a morte súbita e brutal de alguém.

Acontecimentos como, por exemplo, o 11 de Setembro, levantam questões para as quais não temos resposta. Enchem-nos de perplexidade as histórias dos que, nesse dia, não deviam estar nas torres de Nova Iorque e estavam bem como as dos de que lá deviam estar e não estavam. Dos que chegaram atrasados, dos que saíram mais cedo, dos que chegaram na hora. Todas essas circunstâncias, que parecem fruto do acaso, marcam a diferença entre a vida e a morte.

Dá-me sempre um arrepio pensar que no segundo que precede a morte podemos não ter a mínima ideia do que se vai passar. Quantas pessoas não deixam uma frase a meio ou uma refeição por acabar! Estamos vivos e no minuto seguinte podemos estar mortos, tendo passado definitivamente a fronteira que nos separa de tudo o que nos é familiar. Como é óbvio, as pessoas a quem isso aconteceu não estão cá para nos contar a sua experiência e nós, que sem dúvida teremos escapado à morte por um triz numa ou noutra ocasião, temos tendência para esquecer com que facilidade se morre.

Numa escala menor, mas de forma muito mais frequente, as andanças da vida pregam-nos grandes partidas. São acontecimentos inesperados que nos separam bruscamente dos entes queridos, amigos de longa data que nos atraiçoam de um dia para o outro ou desagradáveis surpresas como a de encontrar o marido na cama com outra. Perante tais coisas ficamos desnorteados e surpresos como os “apanhados” de um qualquer programa televisivo. Afinal todas as certezas da vida são tão insubstanciais como a bruma matinal.

Mas a fragilidade da vida e do mundo não fica por aí! Esta Terra sobre a qual repousa o nosso universo pessoal é, ao que parece, composta por átomos, os quais, por sua vez, são compostos por partículas ínfimas cujo comportamento desafia a lógica habitual. É que, embora possamos pousar os pés no soalho com uma reconfortante sensação de solidez, as ténues partículas que o compõem vibram a altas velocidades, perdidas num imenso espaço vazio. O nosso olhar materialista que se diz “cético” repousa sobre uma crença – a da solidez de um mundo que é infinitamente mais vazio que cheio. Paradoxal, não acha?

Assim, tudo o que nos rodeia e ao qual damos tanto crédito é poeira estelar, uma dança frenética de pequenas partículas que, às vezes, se comportam como ondas, outras vezes, como partículas. Quanto mais conhecemos esse mundo subtil mais surpresos ficamos e mais abaladas ficam as nossas certezas: a nível quântico a realidade deixa de ser objetiva e determinada e passa a depender do observador e a ter um caráter de probabilidade.

Quer levantemos os olhos para o céu quer os baixemos para a poeira só encontramos espaço. O infinitamente pequeno e o infinitamente grande são reinos do vazio. Como pode a realidade à escala humana ser sólida? Como pode o vazio suportar o peso da matéria? Como pode o subtil, o efémero e o volátil, suportar o concreto, o eterno e o permanente? Não admira então que andemos sempre desiludidos! O mundo que assim concebemos só existe no nosso espírito.

O membro fantasma de um amputado pode continuar a doer. Um pesadelo faz-nos transpirar e um sonho erótico provoca um orgasmo. Grande parte da nossa perceção visual é uma interpretação feita pelo cérebro com base em experiências passadas. Se o que pensamos ser real repousa sobre o vazio e o pensamos ser irreal produz efeitos, afinal que realidade tem a realidade?

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