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Alimentando quem nos faz mal

Imagine-se levar para casa um assassino, alguém cuja perfídia estivesse comprovada, e dar-lhe abrigo, comida e proteção. Ninguém, no seu perfeito juízo, faria tal coisa. Porém mantemos dentro de nós um inimigo bem mais insidioso e pérfido que não perde uma oportunidade para se servir de nós: o ego.

Aproveitando-se da nossa cegueira, faz-nos acreditar que, ao servirmos os seus interesses, estamos a servir os nossos; que, ao protegê-lo, estamos a proteger-nos. O longo hábito de convivência e a letargia espiritual em que estamos mergulhados impedem-nos de pousar sobre ele um olhar suficientemente atento e crítico para vermos como a realidade é bem diferente.

Para expandirmos o seu território ou defendermos as suas posses, envolvemo-nos em conflitos desnecessários e não nos poupamos a atos inconfessáveis. Pagamos todos os dias as suas faturas emocionais e transportamos connosco o peso do seu egoísmo e das suas consequências, internas e externas. Está na hora de alguém nos abrir os olhos quanto à natureza do vilão a quem demos guarida!

Esta, porém, não é uma tarefa fácil. A menos de uma súbita iluminação espiritual, são precisos anos de observação atenta, bastante sofrimento e um aprofundamento da nossa compreensão para que, camada após camada, vamos removendo o ego das nossas atitudes. Não é algo que possamos fazer de uma só vez e sem dor. É algo que se vai fazendo, aos poucos.

Neste processo, o ego dos outros é essencial. Porque é ele que mais se opõe ao nosso. Se vivêssemos rodeados de pessoas desprovidas de egoísmo correríamos o risco de ter o campo aberto para dar livre curso ao nosso. Nada lhe faria obstáculo e poderíamos até imaginarmo-nos a pessoa mais generosa do mundo. Assim, sempre que o nosso ego colide com o dos outros, temos uma excelente ocasião para nos apercebermos dele.

Porém, nem mesmo nessas ocasiões ele é fácil de detetar. Porque o nosso primeiro reflexo é notarmos o egoísmo alheio – nunca o nosso. Por isso, é bem provável que, ao ler algumas das coisas que foram escritas sobre o ego, dê por si a pensar: “Fulano devia ler isto! Isto é exatamente o que Beltrano faz!”. Sorria. E releia. Mesmo que não consiga enxergar, tenha a certeza de que também se aplica a si.

Não se esqueça ainda de que o ego não é quem nós somos. Ele coabita, em permanência, com a Bondade Fundamental da nossa natureza, substituindo-se indevidamente a ela em muitas das nossas reações. Porém, ele não é o “demónio” nem personaliza o “mal”, não é algo que tenhamos de exorcizar e expulsar de dentro de nós. O ego é inconsciência, um monstrinho virtual que vive nos recantos obscuros da nossa mente. Quanto mais aceitarmos olhar para ele, de frente, sem apego e sem raiva, mais toparemos os seus esquemas e menos nos deixaremos manipular.

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