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Somos crustáceos

Muitas pessoas dizem-se “sensíveis” quando, na realidade são apenas suscetíveis. Qual a diferença? A suscetibilidade é uma hiper-reatividade a tudo o que tenha, ou pareça ter, a ver connosco. Uma pessoa suscetível reage à mais pequena coisa, quer lhe seja dirigida ou não, fazendo um drama de coisas sem qualquer importância. Em contrapartida, esta mesma pessoa pode ser – e geralmente é – bastante insensível em relação aos outros.

É muito complicado lidar com pessoas suscetíveis porque tudo o que fazemos ou dizemos é tomado de forma ofensiva ou ameaçadora. É o que se chama, na expressão popular, “preso por ter cão e preso por não ter”. As pessoas reagem desta forma exagerada porque se sentem frágeis e expostas. São como alguém cujo corpo está em carne viva e para quem o menor contacto é um verdadeiro tormento. Então, para se protegerem, blindam-se, fecham-se e fogem do contacto dos outros. Como não deixam ninguém chegar perto, sentem-se sós e anseiam por encontrar carinho e afeição mas têm um tal pavor de se abrirem e se tornarem vulneráveis, que o relacionamento com os outros é, para elas e para quem delas se aproxima, um verdadeiro suplício.

Muitas vezes constroem uma casca exterior rígida, dura e impenetrável, com a qual finalmente se identificam. É como um segundo ego, feito de ideias e opiniões, de ditames e rotinas. Uma tal construção permite aparar alguns golpes e sobreviver às situações mais banais. Porém, como impede qualquer contacto de coração a coração, as pessoas assim construídas estão sempre famintas de carinho.

Além disso, ao protegerem-se desta forma, perdem toda a agilidade e até o mais básico bom-senso pois vivem imersas numa ficção. Desconhecem-se por completo e aquilo que acham que são é, mais do que nunca, uma construção mental que pouco tem em comum com a realidade percecionada pelos outros.

O perigo de uma tal couraça é grande. Como nenhum ser humano pode viver sem amor, aquela criaturinha assustada que mora atrás das muralhas está sedenta. É então possível que, identificando alguém que lhe pareça merecedor – geralmente indevidamente –, entregue as chaves da sua fortaleza à revelia do bom-senso e do decoro. Não é raro vê-las então quebrar todos os tabus, ir contra todos os seus princípios e comportarem-se da forma mais contrária aquilo que sempre demonstraram ser.

Esta suposta proteção, em lugar de nos fortalecer, fragiliza-nos. Toda a energia é investida na couraça exterior, enquanto o interior é apenas um caos de emoções descontroladas. Somos uma espécie de crustáceo, cheio de picos no exterior e completamente gelatinoso e vulnerável por dentro.

Claro que o mundo é, de certa forma, uma selva por onde andam os egos à solta. Como cada um deles procura essencialmente satisfazer-se, os danos colaterais são inúmeros. Nenhum de nós pode afirmar que nunca saiu magoado de uma relação, que nunca magoou ninguém. Por isso é completamente compreensível que nos protejamos. Mas não assim.

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