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Somos amor

Quando perdemos alguma coisa ou alguém que eram importantes para nós, sentimos o vazio deixado pela perda. Achamos, claro, que se trata de uma consequência natural e não nos questionamos mais. Mas, se pensarmos melhor, uma vez que o que perdemos não faz parte de nós, não nasceu connosco e só entrou na nossa vida numa dada altura, porque razão a sua perda deveria deixar-nos um sentimento de vazio? A única resposta é que esteve a camuflar temporariamente um vazio que sempre sentimos.

Assim, como nos sentimos “pobres”, estamos constantemente à procura do que nos possa reforçar e preencher. Bens materiais, rótulos, estatuto, história de vida e quaisquer características com as quais possamos identificar-nos são a matéria com a qual tentamos dar solidez à nossa identidade.

Porém, de todas as coisas de que podemos “apropriar-nos”, aquelas que mais satisfação nos podem dar são as pessoas. Como nos sentimos incompletos – visto estarmos amputados de uma parte de nós – estamos sempre em busca de nos completarmos. E embora os bens materiais possam iludir a fome durante um tempo, muitos de nós sentem que são os outros que mais os completam.

Há nesta necessidade aspetos genuínos e outros patológicos. Todos precisamos de carinho e, na realidade, a nossa natureza profunda é uma doçura e um carinho imensos, um sentimento que todos já experimentámos num momento ou outro da nossa vida. Algo que eu costumo chamar de “insustentável ternura” e que é demasiado vasto para que o coração o possa conter. Por isso, amar é o que há de mais natural. Somos amor. É disso que somos feitos.

Por outro lado, como amputados que somos, este amor pleno e incondicional é-nos difícil, quase inacessível. Pressionados pela carência interior que sentimos, não conseguimos ser amor pelo que queremos ser amados. Esta infeliz distorção transforma-nos em predadores uns dos outros e contamina e envenena as nossas relações, particularmente aquelas de que mais expectamos.

Quando entendemos isto, compreendemos por que razão as relações entre egos são tão complicadas. Através do relacionamento, o que cada um deles procura é preencher-se e ganhar estabilidade à custa do outro.

Esta dicotomia entre o amor que somos e a necessidade, inventada pelo ego, de sermos preenchidos pelos outros, está presente em todos os relacionamentos da nossa vida, em proporções diversas. Enquanto tivermos um ego – o que poderá ainda durar algum tempo – sentiremos sempre a necessidade de nos preenchermos. Por outro lado, à medida que vamos descobrindo o manancial de amor que está dentro de nós, a capacidade de amarmos e acarinharmos de forma desinteressada vai aumentando.

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