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Encontre a solução…

Há uns anos, tive uns vizinhos que davam festas todos os fins-de-semana até de madrugada: recebiam amigos, jogavam às cartas e punham música muito alto. O meu quarto ficava exatamente por baixo da sala onde se reuniam, de forma que era impossível dormir.

Após alguns fins-de-semana atormentados percebi que o que me impedia de dormir não eram tanto os decibéis mas os meus pensamentos de indignação. Havia mais gritos dentro de mim do que música no andar de cima: “Como é possível que esta gente tenha tão pouco respeito pelos outros? Será que acham que estão sozinhos no mundo?”

Os fins-de-semana tornaram-se num pesadelo, mas não só. Dei por mim a ficar obcecada e a sofrer à segunda-feira pelo barulho que fariam na sexta à noite. Percebi, logo, que estava a tornar a situação num problema e que era urgente tomar medidas.

Esta tomada de consciência é árdua, contudo essencial. Senão, qualquer situação pode transformar-se num dilema grave, capaz de nos envenenar a vida, conduzir à violência, à depressão ou à paranoia. Há que conseguir separar as águas e lidar diretamente com o problema, deixando de parte a nossa opinião sobre ele.

Já tinha pedido aos meus vizinhos para diminuírem o volume, já tinha chamado a polícia. Que mais poderia fazer para impedir o barulho? Nada. Refleti no que era possível para minimizar os inconvenientes e surgiram-me várias hipóteses: mudar o meu quarto para outra divisão, dormir no sofá da sala aos fins-de-semana ou pôr tampões nos ouvidos. Acabei por optar pela terceira hipótese e consegui descansar.

Por vezes, ficamos tão bloqueados na certeza de termos razão que nos impedimos de encontrar uma solução e prolongamos desnecessariamente o sofrimento. Por exemplo, enquanto pensava “Não vou mudar de quarto por causa destes imbecis!”, “Não tenho de pôr tampões nos ouvidos, são eles que têm de se calar!” ou outras coisas semelhantes, estava a adiar soluções fáceis e simples – resoluções que tinham a grande vantagem de dispensar a boa vontade deles para serem implementadas.

Quando consegui minimizar o ruído, foi mais fácil acalmar a indignação. Obviamente, a situação não era a ideal; obviamente eles desrespeitavam os outros; obviamente que era normal que não fizessem barulho a uma certa hora. Mas a realidade era aquela e era com ela que eu tinha de viver.

Temos de compreender que, por muita razão que tenhamos, os factos são apenas o que são e não há qualquer garantia de que sejam justos, previsíveis ou controláveis. Devemos aceitar a situação como ela é, com abertura e calma, e ajustarmo-nos à realidade o mais rápido possível em vez de criarmos problemas suplementares. Afinal, a irritação e a impaciência não solucionam nada, só agravam. Portanto, o mais inteligente é relaxarmos e concentrarmos a nossa energia em resolver a situação em lugar de a complicarmos escusadamente.

Em “O Hábito da Felicidade”

This Post Has 4 Comments

  1. Isabel Silva

    A felicidade para mim… é sentir paz, calma e serenidade no mais profundo do meu ser!

  2. artur

    Olá, Tsering Paldron…

    Obrigado pelo seu pertinente texto.

    Tenho a dizer-lhe que ao vivermos em sociedade, todos temos direitos e deveres;
    principalmente num estado nação, democraticamente eleito.

    Sem dúvida que parece ser bastante conveniente, encerrarmos-nos na nossa concha
    e desligar-mos a nossa consciência em relação às desconfortáveis percepções vindas do exterior.

    Sou de opinião, que por vezes é preciso enfrentar os responsáveis pela a dor e sofrimento, de origem exclusiva causada pelos outros, é por essa razão que existem leis.

    Observe atentamente, as questões relacionadas pela violência doméstica, em que a parte masculina, parece quase sempre o principal agressor.

    Um abraço – artur

    1. tsepal

      Olá Artur, é comum as pessoas compreenderem mal o âmbito dos conselhos budistas. Estes conselhos visam a atitude interior a ter perante as dificuldades da vida e não a resposta prática. Assim, a ideia deste texto é não ficarmos bloqueados em questões de princípio ou outras, não desenvolvermos a raiva e a cólera – que apenas nos prejudicam – e avançar para uma resposta prática, seja ela qual for, que seja adequada e possível.

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