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Ser ou ter?

Para muitos de nós ser é ter. A identificação do ego estende-se do “eu” ao “meu” e faz com que dinheiro, casas, carros, gadgets, roupa e uma infinidade de coisas pareçam acrescentar solidez e prestígio ao “eu”. Mas, como a sede de solidificação do ego é inextinguível, ele está sempre em busca de novas identificações e sempre a tentar preencher o vazio existencial a que deu origem.

A sociedade de consumo entendeu perfeitamente essa necessidade e dá resposta – geralmente até antecipa – todos os nossos desejos. Desde o tempo em que eu era miúda a quantidade de objetos que preenchem a nossa vida multiplicou-se de forma exponencial. A maior parte de nós tem a casa atulhada de coisas que raramente usa – se é que alguma vez usou –, muitas vezes até várias versões da mesma coisa.

Somos por isso obrigados a ter espaços que possam comportar todas essas coisas, armários, arrecadações e garagens para conter essa multiplicidade de objetos inúteis. E depois, temos de trabalhar incansavelmente para pagar o espaço que ocupam.

Muitos de nós sentem que até gostariam de viver uma vida mais tranquila, de ter mais tempo para si, para a família, para fazer as coisas que gostam. Mas estão presos por pesados compromissos financeiros para pagar esta exuberância de objetos e o espaço que eles ocupam na sua vida.

De certa forma, vivemos hoje com muito mais conforto do que há algumas décadas. Mas não mais felizes. Enquanto os meus pais, por exemplo, amealhavam para poderem comprar as coisas que ambicionavam, vendo com entusiasmo as economias a crescer todos os meses, nós hoje pagamos durante anos, no mínimo duas ou três vezes o valor, de coisas de que já usufruímos, ou que até já se gastaram. Não admira que o sintamos como um pesado encargo e nada mais. Economizar para ir de férias não dá o mesmo sentimento do que pagar pelas férias que já gozámos, não é?

Um ego muito apostado no “ter” tem uma verdadeira bulimia de coisas. Os compradores compulsivos gastam o que têm e o que não têm para se sentirem mais preenchidos mas o aspeto paradoxal deste processo, é que não houve, nem nunca haverá, qualquer bem material que possa preencher o “vazio” que sentimos dentro de nós. E que, por muitas coisas de que o nosso ego esteja rodeado, terá sempre sede de mais.

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