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O que pensa o Budismo de…

É frequente perguntarem-me qual a posição oficial do Budismo sobre diversas questões éticas, como o aborto, a eutanásia ou a clonagem. Costumo explicar que o Budismo não tem “posições oficiais”, que não condena nem aprova e que, embora dando pontos de referência, deixa a responsabilidade das decisões a quem as toma.

Por certo questões como estas colocam-nos grandes dilemas, todos eles ligados com o começo da vida, o seu sentido, o seu final e, acima de tudo, o seu valor. Para o Budismo a vida, e particularmente a vida humana, é um dom precioso demais para ser tratado com desinvoltura e menosprezo. Tirar a vida é considerado um dos atos que mais sofrimento causa e, por conseguinte, uma das ações cujas consequências são mais negativas. Assim, em princípio, podemos dizer que o Budismo defende a vida.

Este ponto de partida é uma indicação muito clara e forte que, só por si, nos levaria a responder não à pena de morte, não ao aborto, não à eutanásia e também não às touradas e outros tantos atos de tortura e morte. Mas cada situação é uma situação e não é suposto esta indicação ter força de lei, ser uma condenação ou uma posição oficial. As indicações que o Budismo dá destinam-se a ajudar cada um a encontrar a melhor conduta a ter e não a promulgar leis para condenar ou absolver os comportamentos dos indivíduos.

A questão, claro, é que a sociedade humana tem de adoptar uma posição perante estas coisas, regulamentá-las e aplicar penas. E, para o fazer, tem de adoptar um certo ponto de vista. E é aqui que as coisas se complicam porque, não existindo unanimidade, como escolher um critério que satisfaça toda a gente?

Pessoalmente, faz-me sempre muita impressão tanta pressa em condenar ou absolver e tão pouca ou nenhuma urgência em prevenir, paliar, dar apoio e reabilitar. Talvez porque condenar ou absolver é fácil e rápido e tudo o resto necessita de muito mais tempo e esforço. Em vez de condenar o aborto, porque não se investe na educação dos jovens, porque não se dá alternativas às mães, porque não se sensibiliza a opinião pública para a adoção quando cada vez mais pessoas recorrem à reprodução medicamente assistida? Muitas das mulheres que recorrem ao aborto aceitariam talvez levar a gravidez a termo se tivessem o apoio necessário, fosse ele da família, da comunidade ou do estado. A minha experiência de vida provou-me que, com o tempo, quase todas as mulheres que fizeram interrupções voluntárias de gravidez se arrependem.

Estudos recentes demonstram que a grande maioria das pessoas que pedem a eutanásia o fazem por dois tipos de motivos: ou por grande sofrimento físico ou por perda do sentido e da dignidade da vida. Assim, condenar a eutanásia ou regulamentá-la não chega. Seria muito mais importante criar condições para o trabalho de equipas de cuidados paliativos que ajudassem os doentes a controlar os sintomas e a manter a qualidade de vida até ao fim. Esses mesmos estudos provaram que as pessoas que pediram a eutanásia, e foram posteriormente assistidas em cuidados paliativos, mudaram de ideias e, não só desistiram, como se alegraram por o seu pedido não ter sido escutado.

Assim, parece-me que a condenação ou absolvição é apenas uma forma de resolver e não de tratar os problemas. Como se o facto de adoptar uma “posição oficial” nos dispensasse de tomar conhecimento das verdadeiras necessidades e de procurar dar-lhes resposta.

Teóricamente, a nossa sociedade defende a vida. Em nome da vida o que não fazem os cidadãos comuns, os cientistas e os políticos! Em nome da vida morre-se, tortura-se e mata-se, em nome da vida cometem-se atos heróicos e outros tantos crimes. Mas, por detrás de tantas belas palavras e discursos empolados, haverá um verdadeiro e genuíno empenho em defender a vida?

A postura que o Budismo me ensinou foi a de proteger a vida acima de tudo. Assim, em vez de se começar por tomar posições oficiais, começa-se por prevenir as situações extremas e dar apoio às que não foi possível evitar. Quando partimos do ponto de vista que é melhor evitar tirar a vida tomamos precauções, paliamos, inventamos estratégias para não termos de tomar tal decisão. É fácil imaginar que uma legislação que decorresse deste tipo de atitude teria mais a ver com o compreensão da situação do que com a condenação do indivíduo.

Muitos dirão que é utopia. Talvez. Eu diria que é humanidade – e para isso não é preciso ser-se budista.

This Post Has 2 Comments

  1. mindelo

    A vida é “agir” com sabedoria, se possível e não “reagir” sobretudo quando a vida está prequilitante. A minha jardineira, quando lhe peço para arrancar uma planta que me parece feia e murcha, discorda sempre e diz ” vamos ver se ela rebenta. Se não acontecer nada então arranca-se. Pode-se arrancar a qualquer altura” Acho que é desta sensatez sábia de cuidadora de plantas que eu muitas vezes, necessito. Grata por mais esta ” conversa”.

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