You are currently viewing O pior defeito transforma-se na maior qualidade

O pior defeito transforma-se na maior qualidade

No tempo do Buda existiu um comerciante imensamente rico mas muito agarrado ao dinheiro que veio um dia vê-lo e lhe disse: “Gosto muito os teus ensinamentos, acho-os realmente inspiradores. Só tenho pena que não sejam para mim”. “Porque não haveriam de ser para ti? O que eu ensino pode ser posto em prática por qualquer pessoa”, respondeu o Buda. “Não é bem assim! Por exemplo, estás sempre a falar da importância de sermos generosos e eu não consigo imaginar-me dar seja o que for”.

O Buda sorriu e disse: “Se quiseres tentar, posso ensinar-te a ser generoso. Achas que conseguias dar alguma coisa a ti próprio?” Depois de um momento de reflexão, o comerciante respondeu: “Acho que sim. Diz-me o que tenho de fazer”.

O Buda sugeriu-lhe então que todos os dias se treinasse, a dar algo com a mão esquerda à mão direita, dizendo “toma” e depois com a direita à esquerda, dizendo outra vez “toma” e repetisse o gesto o maior número de vezes possível. O comerciante assim fez e, ao fim de um mês, quando aquele gesto se tinha tornado fácil e natural, voltou a encontrar-se com o Buda que lhe deu um outro exercício, um pouco mais difícil.

Assim, de forma muito progressiva, ele tornou-se mais e mais generoso até ter sido apelidado de Anathapindika, que significa “Aquele que alimenta os órfãos e os pobres”. O seu maior defeito tornou-se a sua maior qualidade e é dito que foi o mais generoso dos discípulos do Buda.

Esta história é contada desde há 2500 anos para nos mostrar como, não só é possível libertarmo-nos das fraquezas, como inclusivamente ao fazê-lo, transformá-las nas nossas maiores forças. Mas como fazer?

Primeiro precisamos de as reconhecer. Na história de Anathapindika foram os ensinamentos do Buda que o levaram a reconhecer a avareza como um obstáculo – até aí, talvez a tivesse considerado como uma necessidade ou apenas um traço de carácter.

Em seguida, precisamos de as aceitar. Anathapindika percebeu que a generosidade não era uma coisa natural para ele mas não procurou desculpas para o seu comportamento. Foi franco e honesto em relação à sua dificuldade. As desculpas atrás das quais tão frequentemente nos escudamos são apenas uma forma de fugirmos ao problema e não o enfrentarmos. Por isso, para podermos trabalhá-lo temos de começar por aceitá-lo.

Finalmente temos de estar dispostos a trabalhar sobre nós mesmos, começando no nível onde de facto estamos, sem relutância nem indignação. Anathapindika aceitou começar com o exercício que estava ao seu alcance, sem pruridos do ego, e apesar de este ser quase caricato.

E, no final, depois de muito treino, a transformação pode ser completa e radical. Pelo empenho posto no treino e a atenção dispensada aos métodos, o pior defeito pode tornar-se na melhor qualidade. Por isso não há mesmo desculpa para não mudarmos, a não ser não querermos.

This Post Has 3 Comments

  1. mindelo

    Já conhecia o exemplo, mas talvez não tenha estado atenta à sua aplicação. Mudar é “como ter que fazer o pequeno-almoço todos os dias” : é sempre preciso, é necessário fazer de novo , assim, continuamente. Talvez seja uma das poucas coisas que é permanente. E exige determinação para quem muda, e paciência com quem está em mudança. Simultaneamente, parece que com a mudança, cresce a abertura da nossa janela interior por onde se infiltra um ângulo de luz… O qual, por vezes, até mostra “uma desarrumação” no meio de “já alguma arrumação”. Sem querer ser pessimista, a ignorância e o ego parecem um poço sem fundo. Eu nem tinha saudades das suas “provocações reflexivas” …só suspiros! E cá vai uma quadra popular “Suspiros e ais e dores/ Magicações e cuidados/ são o comer dos amores/quando se vêem apartados” Bem haja, mestre, pela partilha.

  2. tsepal

    🙂 obrigada pelo comentário – sempre bem-vindo!

Responder a tsepal Cancelar resposta