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Sempre que possível, escolha o amor

Pergunto-me muitas vezes como é possível que as relações sejam uma das maiores causas de sofrimento no mundo ocidental. Sendo que a necessidade de proximidade e carinho faz parte da nossa natureza e é essencial até para a sobrevivência, como pode ser tão doloroso relacionarmo-nos uns com os outros?

Se diariamente há pessoas comuns a arriscarem a vida para salvarem perfeitos desconhecidos, não parece estranho que possamos ser tão cruéis e manipuladores com aqueles que dizemos amar? Este é decerto um dos grandes paradoxos da natureza humana, um paradoxo que podemos entender melhor quando reconhecemos duas forças em conflito dentro de nós: o amor e o medo.

Geralmente pensamos que há muitos tipos de amor. De facto, os sentimentos que temos pelos nossos pais, filhos, cônjuges ou animais de estimação parecem ser de naturezas diferentes. No entanto, se os simplificarmos ao que lhes é comum, descobriremos algo muito parecido com a definição budista de amor, o desejo de que todos os seres sejam felizes e tenham as causas da felicidade.

Pode até parecer que meramente desejarmos a felicidade dos outros não é grande coisa. Mas não é verdade. Se pusermos este desejo em prática e agirmos em consequência, isso pode mudar por completo a nossa perspetiva e a nossa atitude. Desejar bem aos outros obriga-nos a tentar compreender as suas necessidades e os seus desejos, a dar-lhes apoio e a ser solidários. Significa reconhecer a sua dignidade básica, respeitar a sua independência e dar-lhes a liberdade para seguirem o seu caminho. Acima de tudo, significa tentar o mais possível não lhes fazer mal.

Falemos agora do medo. O medo é a raiz do apego e a face negra do suposto “amor”. Não é por amor que maltratamos aqueles com quem nos relacionamos de perto, mas sim por medo/apego/ódio. Consideramos as pessoas como propriedade nossa e esperamos que nos satisfaçam e preencham. Tememos perdê-las, que nos escapem e vivam a sua vida sem nós.

Ao tratá-las como objetos do nosso bem-estar, seja ele físico, emocional ou de outra natureza qualquer, focamo-nos sobre elas inteiramente. Pode parecer que estão no centro das nossas preocupações enquanto, na realidade, o nosso interesse por elas é, essencialmente, egoísta.

Ao longo dos anos tenho notado que existe uma espécie de relação matemática entre os dois. Quando mais estamos centrados sobre uma só pessoa, mais os outros nos são indiferentes e, ao inverso, quanto mais desejamos o bem de todos, menos é provável que possamos centrar-nos sobre uma só pessoa de forma tão obsessiva.

Amor e medo seguem caminhos opostos, mas nunca andam separados. Enquanto não desaparecer o sentimento básico de insatisfação (a que Buda chamou de Dukkha), o amor estará sempre, inevitavelmente, misturado com apego na maioria das relações. Podemos apenas aprender a distingui-los e escolher o amor em vez do medo, sempre que for possível. E é sempre possível.

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