You are currently viewing Deve ser da idade

Deve ser da idade

Não sei se é da idade… Talvez seja. Mas sinto que cheguei a um momento na minha vida em que o famoso conselho de Patrul Rinpoche começa a fazer cada vez mais sentido:

“Faz como as vacas velhas,
Que ficam felizes por dormirem no estábulo
Comerem, dormirem e cagarem –
As coisas indispensáveis.
Quanto ao resto: não é da tua conta.”

Patrul Rinpoche, mestre tibetano que viveu no século XIX, tinha a reputação de ser pouco convencional e muito anticonformista. Passou a maior parte da sua vida vivendo como um sem-abrigo, errando pelos montes, ensinando o pináculo dos ensinamentos do Budismo Tibetano – o Dzogchen, ou Grande Perfeição – e deixando para trás as oferendas que lhe faziam, fossem elas em ouro ou em argila.

Digo-vos isto porque é possível que nunca tenham ouvido falar nele e para legitimar uma afirmação que pode ser polémica e parecer politicamente incorreta, sobretudo para quem vive para abraçar causas – o que nunca foi a minha praia.

À medida que os anos passam tenho cada vez mais noção de que o importante na vida não é o que eu faço mas o que eu sou; não é a aparência da ação mas a “qualidade de ser” que a motivou, não são as revoluções mas o conhecimento interior. É uma opinião – ninguém é obrigado a concordar.

Deve ser da idade, mas quando penso na quantidade de coisas que cada um de nós já fez, ao longo da sua vida, na quantidade de coisas que os biliões de seres humanos que povoaram este planeta já fizeram, não posso deixar de pensar que a esmagadora maioria delas foi inútil, senão perniciosa.

A quantidade de gente que morreu para que hoje se fale português em Portugal, francês em França ou inglês no Reino Unido é alucinante e desnecessária. Que me perdoem os irredutíveis da lusofonia, mas não sei se o facto de hoje não se falar castelhano em Lisboa valeu todo esse sofrimento, esse sangue derramado, essas mortes e essas violações.

É estranho que tenhamos desenvolvido tecnologias capazes de grandes proezas e continuemos sem saber quem somos e como podemos viver em paz connosco, com os outros e com o resto da natureza.

É estranho que possamos estar em contacto com gente do outro lado do mundo, instantaneamente, e não façamos ideia de onde vêm os pensamentos e qual a sua natureza.

É estranho que nos apelidemos de “Seres” humanos e só tenhamos tempo para fazer, nunca para ser.

É estranho que sejamos tão inteligentes e tão pouco bondosos.

É por isso que, para mim, envelhecer é uma grande alegria. Estou a começar a chegar àquela idade em que vou sentir legitimidade para seguir os conselhos de Patrul Rinpoche sem que ninguém se escandalize (e com um pequeno subsídio da Segurança Social): encontrar um estábulo T0, comer dormir e, enfim… fazer apenas o indispensável. E, no resto do tempo, SER. Cheirar, apreciar, sentir, reparar. Uma vaca feliz – como nos Açores.

This Post Has 10 Comments

  1. Sonia Gomes

    Adorei Tsering!
    Grata por esta partilha 🙂

    Beijinhos!

    1. Tsering

      Obrigada Sónia já tenho saudades

  2. Pema Yeshe

    Minha querida Mestra que extraordinário artigo. Chegou no momento certo. Bateu com uma força poderosa e linda bem cá dentro. Obrigada com todo o meu ser. Blessings. Long life dear Tsering.

    1. Tsering

      Querida Pema Yeshe, ainda bem! Espero vê-la em breve feliz e sorridente. ❤️

  3. Carla Campos

    Querida Tsering, não vejo a hora de conseguir fazer um dos seus retiros…
    Muito grata pelos seus ensinamentos que tenho sempre à minha cabeceira e que absorvo das suas palavras tão sábias cheias de verdade!

    1. Tsering

      Obrigada Carla espero que possamos encontrar-nos em breve. Beijinhos

  4. maria figueiredo

    Estou muito grata a Tsering Paldron pelos maravilhosos artigos que tenho conseguido ler! Obrigada! são muito inspiradores e reconfortantes! Obrigada uma vez mais!

    1. Tsering

      Obrigada. ❤️

  5. Maria Lopes

    Cara Tsering

    Confesso! Que ao ler este artigo senti aquele incomodozito que nasce da inveja.
    Verdade, senti inveja! ah.. pensei, esse deve ser o nirvana na terra…porque Ser é acção, Sendo actuo.
    O contrário é omissão, a tal de quem passa ao lado do faminto, ou do que agride uma criança, ou do que explora um indefeso e segue o caminho assobiando.
    Cheirar- o quê? se entretanto consenti na destruição de toda a flora
    Apreciar – o quê? se fui conivente pelo meu silêncio fazer do mar lixeiras e dos bosques terra queimada
    Sentir – o quê? a fúria e a indiferença que em crescendo vai moldando a humanidade?
    Reparar – em quê? quando tudo isto acontecer (aliás está a acontecer) creio que o único momento vivo do dia será apenas reparar no tal dejecto, esse sim criativo e individual.
    Não, não escolho essa opção. Mas fico-lhe muito grata por me lembrar que envelhecer é uma dádiva e que se continuo aqui, é porque ainda algo se pode fazer, SENDO.
    Maria Adelina

    1. Tsering

      Cara Adelina, SER não exclui atuar, de facto. E actuar também não tem de exluir a capacidade de apreciar o que está à nossa volta, aqui e agora. Enquanto me empenho para preservar a natureza – e sabendo tudo o que já foi destruído – posso usufruir do perfume da tília, que neste momento está em flor, do cheiro a maresia ou da relva cortada. Mesmo se o mar está repleto de plástico – e enquanto faço a minha parte, seja ela qual for, para impedir que continue – posso continuar a apreciar as pequenas coisas boas que fazem parte da minha vida. Porque uma coisa tem de impedir a outra?
      Mesmo se a escolha dos média é de nos bombardear com más notícias, não há apenas coisas más a acontecer no mundo. Há muita gente boa que, embora não tendo cobertura mediática, tenta ser ainda melhor a cada dia que passa. 🙂

Deixe uma resposta