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O segredo da resiliência

Um dos aspetos da paciência, tal como foi descrita no contexto do treino budista, é a resiliência, ou seja, a capacidade de enfrentar as dificuldades com uma atitude positiva e não-conflituosa.
A palavra paciência, na sua utilização mais comum, sugere frequentemente algo diferente: o controlo da irritação ou da cólera. “Tens de ter paciência”, é o conselho que recebemos dos amigos quando começamos a ferver. Mas, quando assim é, estamos a falar simplesmente de não explodir, apesar de internamente estarmos em ebulição.
No contexto das Paramitas (as “virtudes” do Bodhisattva), a paciência enquanto resiliência, é uma atitude de coragem e resistência, mas também de abertura e até de humildade.
Tanto quanto pude observar, esta atitude resulta de um misto de várias coisas:
Por um lado, a compreensão profunda, levando à integração na nossa visão do mundo, da natureza inevitável do sofrimento, Dukkha. Tendo integrado os ensinamentos de Buda sobre as 4 Nobres Verdades e tendo feito as nossas observações pessoais, a realidade do sofrimento tornou-se um dado adquirido. Assim, quando confrontados com o desconforto, a dificuldade e o sofrimento, não há tanta surpresa.
Por outro, o trabalho de igualização de nós e dos outros. Ao contrário da atitude geral, em que temos sempre a sensação que somos diferentes dos outros – quer melhores, quer piores – constatamos a nossa igualdade. Não só somos iguais no desejo de escapar ao sofrimento e termos as causas da felicidade, mas também no facto de estarmos potencialmente submetidos a problemas, dores e vicissitudes. Assim, quando algo difícil nos acontece, em vez de nos questionarmos “Porquê eu?”, podemos perguntar “Porque não eu?”.
E, por fim, o afrouxamento do apego ao eu que se traduz, neste caso, pela atitude fortemente defensiva perante o mais pequeno inconveniente ou desconforto, seja ele um simples mosquito. Quando constatamos com que ferocidade, por vezes, defendemos o nosso “território” – seja o nosso corpo, as nossas posses, os nossos próximos, ou mesmo as nossas ideias – vemos o que se esconde por detrás: o apego ao eu, à identidade. Assim, quando como resultado do treino budista, essa cegueira afrouxa, estamos mais abertos e relaxados, menos inclinados a ver em tudo uma ameaça.
O que resulta destes três treinos – sendo que esta lista não é, de forma alguma, exaustiva – é um aumento da nossa capacidade de aceitação e de resiliência do qual, por ser tão natural, nem sequer nos apercebemos, a não ser quando somos confrontados com as dificuldades. No entanto, mais do que a qualidade da nossa concentração durante as sessões de meditação, esta é a verdadeira medida da nossa prática espiritual.

This Post Has One Comment

  1. artur

    Olá, honorável e respeitável, Tsering Paldron …

    Receba os melhores agradecimentos, pelo seu interessantíssimo e “pacífico” texto … !!! …

    Todavia, se você tiver disposição e tempo para me responder, só desejo que me diga qual deverá ser a melhor atitude, que os povos nomeadamente os chamados trabalhadores, deverão ter em face dos seus “corruptos” governantes … Incluindo a chamada dinastia lamaista que administrava o Tibete antes da intervenção chinesa ???

    Amigavelmente – artur

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